O carnaval e o mito da democracia racial

Tadeu Kaçula | Acervo Pessoal

Por Tadeu Kaçula

O punho erguido, também conhecido como o punho cerrado, é um símbolo de solidariedade e apoio a causas relacionadas a conflitos sociais como racismo, xenofobia, sexismo entre outras mazelas que fragilizam as relações humanas. Também é utilizado como uma saudação para expressar unidade, força, desafio ou orgulho de pertencer a um grupo social politicamente minorizado. A saudação remonta a antiga Assíria como um símbolo de resistência em face da violência.

O gesto com braço erguido e punho cerrado era utilizado por Nelson Mandela, um dos principais nomes na luta mundial contra o racismo. Ele lutou contra o apartheid e a segregação racial na África do Sul. Mandela passou 27 anos na cadeia e, após sua saída, continuou na luta contra o preconceito, se tornando presidente da África do Sul em 1994.

Quando visitamos a história do carnaval de São Paulo, encontramos em suas bases fundantes um conjunto de elementos étnicos que foram vitais para compreendermos o carnaval na dimensão que conhecemos hoje.

A formação desses espaços de sociabilidade e resistência negra foram necessários, pois a branquitude do poder político e econômico criou diversas formas de impedir que a população preta conseguisse ascender socialmente no pós abolição, além de criar estratégias epistemicídas para acabar com a presença física, cultural e simbólica dos descendentes dos povos das diásporas africanas.

Falar sobre privilégio branco é falar sobre a formação da história social do Brasil e, nesse sentido, teremos que partir do pressuposto de que, por saber exatamente que ocupa espaços de privilégios, a branquitude investe muito do seu ócio improdutivo para tentar desqualificar os espaços de referência cosmológica da população preta! Não há como legitimar uma falsa ideia de vivermos numa democracia racial!

Não esqueçamos que o Mestre Geraldo Filme já nos alertava, na década de 1970, quando nos deixou um relatório do processo de branqueamento do carnaval em forma de música. Ao escrever o samba “Vai Cuidar de Sua Vida” problematizando a questão da apropriação cultural das rodas de resistência negra (candomblé, capoeira e samba), Geraldo nos disse:

Crioulo cantando samba, era coisa feia

Esse negro é vagabundo, joga ele na cadeia.

Hoje branco está no samba, quero ver como é que fica.

Todo mundo bate palmas quando ele toca cuíca…

Ao invocar o Mestre Geraldo Filme neste texto de posicionamento político, faço uma reflexão acerca do quão nocivo tem sido o processo de branqueamento do carnaval de São Paulo. Esse processo que vem se intensificando progressivamente ao longo das últimas décadas, faz com que alguns dirigentes brancos de escola de samba se sintam confortáveis para proferir falas racistas e posicionamentos extremamente segregadores. Há dirigente de escola de samba que questiona a legitimidade e importância do Afoxé Omo Dadá abrir os desfiles das escolas de samba, a ponto de dizer que “não precisa de macumbeiros abrindo o carnaval”.

No desfile das escolas do grupo de Acesso 1, domingo de carnaval, um fato extremamente desrespeitoso e reprovável ocorreu no Sambódromo do Anhembi na concentração da escola de samba X-9 Paulistana.

A escola da zona norte de São Paulo apresentou o enredo “Dona Ivone Lara, mas quem disse que eu te esqueço?”. A agremiação fez uma homenagem ao centenário do nascimento da primeira mulher a assinar a autoria de um samba-enredo e fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba, a Império Serrano.

Ao discursar para os seus componentes no momento em que a escola estava concentrada, o presidente da X-9, Mestre Adamastor, pediu para que todos erguessem a mão e fizessem o gesto do punho cerrado. Na sequência, o presidente da escola disse que esse gesto não significava “porra nenhuma“.

Homenagear uma mulher preta que é uma referência de resistência negra e desconsiderar todo seu legado de enfrentamento ao racismo é, no mínimo, uma CLARA demonstração de como algumas escolas de samba brancas se apropriam de temas ligados à negritude apenas por conveniência, pois é sabido e notório que as narrativas cotidianas nesses espaços não se alinham com a luta diária de resistência negra no Brasil, bem como não há nenhum compromisso com a luta antirracista, o que deveria ser uma prática permanente desses espaços socioculturais, criados desde o século passado pela população preta deste país!

A fala do presidente da X-9 Paulistana foi extremamente desrespeitosa para a história de luta do povo preto e afronta a nossa existência quanto sujeitas e sujeitos de direitos.

Não há mais espaço para práticas racistas e desrespeitosas contra a história e presença física, cultural e simbólica da população preta que edificou este país. Cometer atos de racismo e desrespeito contra essa população e depois mandar um pedido irônico de “desculpas” só reforça o quanto desrespeitoso está sendo com as pautas da luta antirracista. O mais impressionante é ver um presidente de escola de samba cometendo esse ato deplorável de racismo e desrespeito contra um gesto que representa a luta do povo preto, pois vai completamente na contramão do que uma escola de samba representa em termos cosmológicos como uma referência das três rodas sagradas do universo negro brasileiro!

O privilégio branco não pode mais descontruir as epistemologias pretas que formam a identidade do samba e do carnaval no Brasil. Não aceitamos mais esse tipo de afronta contra os nossos símbolos sagrado e políticos de luta e resistência. É fundamental compreendermos que só há luta e resistência por parte do povo preto porque há racismo e opressão do povo branco e isso está se intensificando no processo de branqueamento do carnaval de São Paulo! 

* Tadeu Kaçula é sambista, sociólogo formado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Mestre e Doutorando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP), Coordenador executivo da UNAFRO – Universidade Livre de Sociologia e Comunicação Afro-brasileira, membro do grupo de Estudos Latino Americano sobre Cultura e Comunicação (CELACC – USP), membro do grupo de estudos Griô da Universidade Federal da Bahia – (UFBA), autor do livro Casa Verde, uma pequena África paulistana e autor convidado no livro Cultura Política nas Periferias – estratégias de reexistência. 

* * Este texto é um artigo de opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do SambaNews.

Redação SambaNews

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