Bem lá no fundo do meu quintal

Roberta Quaglio, 44 anos, gerente financeira e operacional, mãe de 3 filhos e já avó de um bebê. Robertinha cresceu na Zona Norte, rodeada por escolas de samba, onde fez das quadras o fundo do seu quintal 
Roberta Quaglio
Foto: Acervo Pessoal

“Sou Roberta Quaglio, 44 anos, nascida e criada no bairro da Casa Verde Baixa, Zona Norte de SP, há três quarteirões do Anhembi, de onde posso ouvir, muitas vezes, até o grito de guerra dos intérpretes, há 10 minutos de caminhada do Mocidade, Peruche, pertinho da Império e se andar mais um pouquinho, chegamos ao Morro da Casa Verde. Atravessando a ponte, Camisa, Águia, Mancha e Fábrica do Samba… Enfim, cercada, rodeada, por aquilo que tanto amo, o Carnaval… Bem lá no fundo do meu quintal…

Mas, foi no Bairro do Limão que minha história no samba começou. Em 1986, aos 11 anos, guardo as minhas primeiras lembranças numa quadra, a da Morada do Samba, minha raiz, meu berço, meu sangue vermelho e verde!

Ali, vi meu irmão, hoje, harmonia, Roberto Zangado, passar pela Ala Bafo da Jibóia e integrar a comissão de frente.

Mocidade Alegre
Foto: Reprodução

Eu ajudava na confecção das fantasias, mas meu sonho era ser porta-bandeira (eu era apaixonada pela Soninha, na época a primeira porta bandeira). Aos 15 anos, o Neco me deu o pavilhão, me levou ao centro da quadra e me fez girar. ‘Você leva jeito, volte assim que o carnaval acabar que vou te ensaiar’! Eu não voltei. Caí na tentação de sambar e, pronto, já queria ser passista…

E foi assim, quando em 1998, me tornei destaque de chão, vindo à frente da Ala Show e, nos anos seguintes, à frente da Ala do Biro e do Mário, meus eternos ‘chefes’.

Roberta Quaglio
Foto: Acervo Pessoal

Em 2003, durante a festa 24h de samba da Mocidade, a Furiosa da Barra Funda, comandada por mestre Neno, e ganhadora de seu terceiro troféu do Diário, se apresentou e aquela escola, que tinha sido meu grande desafeto em todos aqueles anos, rivalidade saudável, me arrebatou. Como sempre brinco, Mocidade é minha casa, minha família, meu pai e minha mãe. E o Camisa é meu malandro, minha paixão, com quem me casei e formei minha família! Uma não substitui a outra, elas se completam, como na vida.

No dia seguinte à festa, fui pela primeira vez, para a esquina da Barra Funda, onde realizei um sonho de vida: virar ritmista, ou, como ali aprendi, batuqueira. No primeiro ano toquei ganzá e iniciei minha história, a história, e LUTA, de tantas mulheres: “Lugar de mulher é onde ela quiser… E na cozinha que ela quiser” e, assim, empunhei, com muito orgulho, sacrifício e preconceito às caras, minha primeira baqueta, o talabarte, o repinique, a caixa, a cozinha, o pesado. Fui conquistando meu espaço, mas enfrentando muito machismo. Lembro perfeitamente quando o Neno, chegou na barraca e disse “Roberta, você é tão bonita, porque não desfila de passista… mulher na cozinha é fogo!”. Que raiva senti! Tanta que numa apresentação na quadra do Barroca, não vesti nem a calça branca. Por sorte, o Lipe (filho do Neno) e meu filho, que desfila comigo desde os 10 anos, dormiram enquanto antes da nossa entrada. Sobraram duas ripas e o Neno, então me chamou para tocar… E, nessa noite, eu toquei, como nunca, como mulher!

Tudo mudou! O reconhecimento, o espaço, as portas foram se abrindo. Fui convidada para tocar na bateria da Mancha Verde,  caixa e repinique, onde fiquei alguns anos. No último carnaval, voltei a desfilar na minha Mocidade, sambando no pé. E como batuqueira, na Furiosa da Barra, com a honra de ser comandada por Mestre Marcão. Também desfilei pela Morro da Casa Verde, além de tocar com Segunda Sem Lei, nas 24h de samba, o que muito me honrou.

Mestre Marcão e Roberta Quaglio
Foto: Acervo Pessoal | Roberta com Mestre Marcão
Roberta Quaglio
Foto: Acervo Pessoal | Roberta no Segunda Sem Lei
Roberta Quaglio
Foto: Acervo Pessoal | Roberta na Mancha Verde

Em 2021, já tenho o convite para estrear na Marquês de Sapucaí, pela Tuiuti, com Mestre Marcão e meus amigos Chulé, Celsinho e Carlão… não vejo a hora!

Um momento que sintetiza tudo isso? As 24h de samba deste ano tive a honra de tocar pelo Camisa na quadra do Mocidade, vivendo meus dois amores num mesmo momento, um mágico e emocionantes momento. E como samba é herança, é história, é imortal, hoje vejo minhas duas filhas, na mesma idade em que comecei, aos 9 e 12 anos, desfilando pelo Mocidade, apaixonadas. E meu filho, casado com aquela que conheceu no Trevo, componente da comissão de frente, já levando meu neto de um ano para vê-lo tocar!”

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Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

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