Jorge Silveira, o jovem de muitos carnavais

Carnavalesco que volta para assinar enredo 2021 da Dragões da Real, já trabalhou para oito agremiações ao mesmo tempo!

Quando uma criança começa a frequentar ambientes de escola de samba, as chances dela continuar naquele universo são grandes. Para a nossa sorte foi o que ocorreu com Jorge Luiz Silveira. Desde muito criança, ele acompanhava o pai, Jorge Caldeirão, que nas décadas de 1970 e 1980 era carnavalesco em Niterói (RJ), e desde então, tomou gosto e mergulhou no mundo das artes, croquis, alegorias e brilhos do carnaval. “Minha infância foi regada nesse universo de processo de produção em barracão. Ali era meu parque de diversões, eu ficava encantado com tudo aquilo. Anos depois, eu busquei formação em educação artística e lecionei artes, durante 15 anos. Até que, a partir de 2012, eu passei a me relacionar com o carnaval, de maneira mais intensa”, conta Silveira. 

Jorge iniciou a carreira criando e desenhando para carnavalescos no Rio de Janeiro, entre eles os renomados Rosa Magalhães, Max Lopes e Jaime Cezário. A experiência funcionou como uma porta de entrada para os demais trabalhos. Depois disso, ele não parou mais e chegou a prestar serviços para oito agremiações, simultaneamente.

Aos 39 anos, ele tem um currículo considerável com passagem por agremiações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 2016, fez parte de uma comissão da escola Bom das Bocas, da cidade de Três Rios (RJ), onde juntamente com um grupo de carnavalescos trabalhou o enredo Bom das Bocas – A essência do Samba e a escola se tornou vice-campeã. No mesmo ano, ele se dividia nos trabalhos para o projeto da Dragões da Real, na capital paulista, onde contribuiu para o desenvolvimento do desfile com o tema Surpresa! Adivinha o que eu trouxe pra você!, sobre presentear e receber presentes.  

Trabalhos, São Paulo e inspirações

“Meu primeiro contato com o carnaval de São Paulo foi via internet. Criei um perfil onde publicava meus desenhos. Por ali, várias escolas me contratavam para desenhar. Recebi convites de Vitória, Porto Alegre, Uruguaiana e São Paulo. Por conta do contato online”.

Ele se refere a um blog que ele mesmo colocou no ar e onde posta toda a sua trajetória em desenhos de alegorias, fantasias e detalhes de suas criações. Atualmente, conta com mais de 250 mil acessos e recebe mensagens em idiomas que nem consegue distinguir.

Jorge Silveira - Blog
Jorge Silveira | Arquivo Pessoal

Foi por este canal que, em 2014, Silveira chegou até a Dragões da Real, onde participou de uma comissão de carnaval. Seus desenhos chamaram a atenção da diretoria, que o convidou a contribuir no desenvolvimento dos trabalhos para o enredo Acredite se puder! que a escola levou para a avenida e ficou entre as cinco campeãs em 2015. Por mais dois anos seguidos, o carnavalesco defendeu a agremiação da Toca do Dragão, sendo que, em 2017, ele repete o trabalho em ‘dobradinha’, prestando serviços, também, para a Viradouro, no Rio de Janeiro. “A escola estava desacreditada, condenada cair fora da Sapucaí. Faltando 59 dias para o desfile, eu fui morar no barracão com mais três pessoas. Perdi 11 quilos porque vivíamos no limite, sem banheiro, alimentação precária, barracão dividido com alegorias sendo construídas em outro endereço e, mesmo assim, nós conquistamos o segundo lugar. Fazer arte no Brasil é dificuldade sempre e no carnaval é extremo. Eu posso dizer que sou PhD em dificuldades!”, ressalta.  

Com a escola paulistana ficou em segundo lugar no campeonato com o enredo Dragões Canta Asa Branca. Para ele, este foi um carnaval bem marcante: “Eu poderia falar de vários, mas este, em 2017, me marca muito e também vejo como um passo de amadurecimento da escola, que chegou muito perto do campeonato. Asa Branca é marcante na minha vida e eu fiquei muito feliz em ter participado do desenvolvimento. Outro ponto é que São Paulo é a maior ‘cidade nordestina’ e a identificação do público foi muito forte”, destaca.

Depois de intensa ponte aérea com a passagem na ‘Terra da Garoa’, Silveira retorna para o carnaval carioca e defende por três anos seguidos, de 2018 a 2020, a São Clemente, do Grupo Especial. “Neste período, eu passei a me dedicar a uma só escola e migrei da função desenhista para carnavalesco e cuidar do meu próprio projeto”, conta. 

Abre-alas São Clemente - 2020
São Clemente 2020 - Abre-alas

Vale registrar que, entre São Paulo e Rio de Janeiro, o carnavalesco também participou de projetos nas agremiações Colorado do Brás, Gaviões da Fiel e X-9 Paulistana, Imperatriz Leopoldinense e Mangueira

Sobre suas inspirações para criar, ele conta que deixou um pouco a fórmula de ter muitas ideias na manga para tornar realidade: “Eu mudei minha lógica. Procuro observar a agremiação e fazer uma espécie de raio-x para desenvolver um enredo que esteja de acordo com a identidade dela. Eu foco na trajetória da agremiação e entendo que quanto a escola de samba veste um tema que tem a ver com sua identidade, o processo é mais tranquilo. Ali tem a história da comunidade. Eu tenho que seguir o pavilhão, não ele me seguir. Não tenho que realizar um desejo pessoal meu. Trata-se de prestação de serviços para a comunidade”, explica.

A volta para a Dragões da Real

Jorge Silveira está de volta para trabalhar no projeto 2021 da Dragões da Real e vai levar para a avenida o enredo O Dia em que a Terra Parou, que tem muita relação com o atual momento que vivemos, com pandemia e isolamento social, por conta da COVID-19, que há três meses mudou a rotina e o comportamento do mundo.

Jorge Silveira - Dragões da Real
Dragões da Real - 2021

“Gosto muito de pensar em leituras que fujam do óbvio e seja fora da caixinha. Tenho uma influência muito forte na narrativa do carnavalesco Fernando Pinto, que tinha uma linguagem tropicalista e era focado na brasilidade. Outra coisa que tenho gostado é poder falar de atualidade, temas que estejam no cotidiano das pessoas como fiz em 2019, 2020 e 2021. A atualidade está no meu foco”, pontua. O carnavalesco diz estar seguindo o calendário das atividades, mesmo a distância, utilizando os meios tecnológicos para as conversas com sua equipe e direção da escola.

“A prioridade é preservar a vida humana, fazer o isolamento. Para preservar nossas vidas e a das pessoas que amamos. Pode ser que postergue, mas haverá e nós estarmos nos preparando a todo vapor. Será um carnaval de dificuldades e que vai nivelar todos. Uma festa para celebrar a vida e dizermos que ela tem que continuar. Carnaval é a comemoração que precisamos, pois essa é a nossa bandeira da cultura”, conclui.

Mônica Silva

Paulistana, da Freguesia do Ó. Jornalista, assessora de imprensa, especialista em produção editorial para publicações em segmentos diversos. Sempre teve Rosas de Ouro como primeira referência de carnaval. Já desfilou pelo Império de Casa Verde e também frequenta ensaios nas quadras das principais agremiações da zona norte.

Compartilhe com os amigos:

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
Scroll to Top