André Lara, a continuação de uma nobre família imperiana

Nascido em berço de rainha, André Lara segue na missão de continuar legado da eterna Dama do Samba, Dona Ivone Lara

André Luís Lara Martins da Costa, só por esse sobrenome extenso já poderia ser considerado integrante de alguma família real. E não deixa de ser. André Lara, como é conhecido nas rodas de samba, é neto da grande rainha e dama do samba, Dona Ivone Lara. Único familiar a seguir os passos da avó famosa, Lara, que também é professor de educação física, conta que não tinha intenção nenhuma de virar músico. Mas, por volta dos 15 anos, ao entender a importância da figura da avó no cenário musical brasileiro, começou a se interessar por aprender a tocar. “Eu, de criança, sempre saia com ela, ia aos shows, às festas, reuniões, mas ficava brincando, não tinha noção. E quando eu comecei a ficar mais velho, comecei a me interessar mais a ouvir música. Eu usava um cavaquinho, que era da minha avó. Eu passei a fazer aulas com um professor de Inhaúma, onde morávamos, e não contei para ninguém da família”.

Em paralelo, André ingressou na faculdade de educação física e seguia sua vida normalmente, sem contar aos colegas de classe que o Lara do sobrenome era de Dona Ivone. “Quando eu entrei na faculdade, conheci uma rapaziada, meus amigos até hoje, o André e o Mug, que são do grupo Bom Gosto. Eu fiquei quietinho, ninguém sabia que eu era neto dela. O André, por coincidência, era vizinho de um primo meu. Não tinha mais como esconder, então começamos a falar de samba, eu já estava naquela empolgação de aprender as coisas, comecei a me aperfeiçoar mais e mais na música, estudar, andar mais com a minha avó e estar mais em contato com ela”.

Dona Ivone Lara e André
Dona Ivone e André
Quem sai aos seus, não degenera

André não conseguiu ficar muito tempo fugindo do destino. Durante um show de Dona Ivone, o cavaquinista teve um imprevisto e, por saber que André já estava se arriscando nas cordas, pediu que o substituísse no palco. Surgiu aí a primeira oportunidade profissional. “Eu subi no palco, nervoso, com as mãos geladas. Minha avó já estava com a banda e o show estava cheio. Toquei! No final, a empresária dela veio falar comigo, dizendo que não sabia que eu tocava, mas que eu tocava bem e me convidou para entrar para a banda”. Começava ali a realização de um sonho.

O cantor conta que a avó nunca o cobrou de nada, que esperava dele as iniciativas. Ao aceitar o convite para ingressar a banda, Lara intensificou os estudos e se matriculou numa escola de choro, onde teve aulas com Luciana Rabello e Wanderson Martins, um dos maestros da banda de Martinho da Vila. Dali foi um pulo para começar, também, a compor com Dona Ivone.

“Eu, desde novo, via aquele processo todo de composição de música. Eu passava o dia com a minha avó, porque meus pais trabalhavam fora e só me buscavam a noite. Délcio Carvalho ia lá fazer música com ela quase todos os dias e eu acabava vendo aquilo tudo, mas não tinha muita noção. Fui crescendo, ficando mais velho, comecei a ver como era esse processo da criação da música e me interessei.”

Além do sobrenome e paixão pelo samba, André Lara, puxou ainda da avó a facilidade de compor as melodias. Ele lembra que sua primeira composição foi mostrada a ela, que o ajudou a fazer alguns consertos e na sequência também contou com o olhar de Bruno Castro, último parceiro musical de Dona Ivone. “Nessa época eu já estava fazendo estágios pela faculdade. O Bruno, além de ser da banda da minha avó, era diretor da escola onde eu trabalhava. Mostrei a melodia, ele colocou a letra e dois meses depois recebo a notícia que as meninas do Quarteto Em Cy iriam gravar a nossa música no primeiro disco de samba delas. Comecei com o pé direito”. Depois disso, outras composições vieram em parceria com outros nomes do samba: Délcio Carvalho, Aluisio Machado, com compositores da nova geração, e claro, com a avó.

“Foram me chamar, eu estou aqui…”

André Lara entrou para a banda de Dona Ivone aos 24 anos, compondo e tocando. Foi quando Dona Miriam, empresário de Ivone, chamou sua atenção para o fato de ter que diminuírem o tempo de duração dos shows. Dona Ivone estava com idade avançada e já demonstrava sinais de cansaço. “Ela gostava de fazer shows. Era uma terapia porque já estava aposentada, não tinha mais nada pra fazer. A gente marcava um ou dois shows no mês pra ela não ficar em casa. Quando a empresária me falou sobre isso, me pediu que eu passasse a cantar na abertura dos shows com a minha avó. Ela me via nos bastidores, passando som, cantando e achou que eu cantava bem. Outro desafio pra mim. Foi aí que eu comecei a me perceber como cantor, músico e compositor de samba, que é o que eu gosto de fazer”.

Antes da banda de Dona Ivone Lara, André fez parte do grupo DNA do Samba, que era formado por filhos e netos de grandes sambistas: Nei Lopes, Nelson Sargento, Carlinhos 7 Cordas, Noca da Portela, Martinho da Vila e Sillas de Oliveira.

Legado da rainha
Desfile Império Serrano
Desfile Império Serrano - 2012

“Uma coisa que minha avó me ensinou: faça bem feito, não fique com pressa, faça o seu trabalho e procure sempre ajudar, abrir portas, se tiver oportunidade, para alguém que está chegando. Faça música com dignidade”, relembra André.

Ele destaca que carregar esse sobrenome é uma responsabilidade enorme e que toma certos cuidados para não esquecer em qual família nasceu. “Às vezes eu falo que eu não pedi para nascer nessa família, mas Deus me jogou aqui e vai além da música. Esse legado, pra mim, foi uma missão muito árdua, mas eu gosto de desafios. E como fui o único da família a seguir a carreira, espero passar para o meu filho continuar”.

Dona Ivone Lara em 2018, aos 97 anos. Sua história com a música também vem de herança familiar. Seu pai tocava violão 7 cordas e a mãe, costureira, cantava. Ambos desfilavam em blocos e ranchos carnavalescos tradicionais no Rio de Janeiro. Ivone perdeu a mãe aos 3 anos de idade e o pai, aos 16. Passou a ser criada por seus tios, onde aprendeu a tocar cavaquinho e ouvir sambas. Formada em enfermagem e serviço social, com especialização em terapia ocupacional, Ivone teve parte da vida dedicada aos trabalho em hospitais psiquiátricos. Só passou a se dedicar a carreira musical no ano de 1977, quando já estava aposentada.

André relembra a avó com muito carinho. “Minha avó era uma pessoa normal, super tranquila, aquela avózona, dona de casa, mãe, tia. Eu fui o primeiro neto, então ela tinha aquele chamego todo, aquele mel comigo. Sempre me orientando, perguntando das notas na escola. Ela era braba, mas com o chameguinho, ela ficava mansinha”. Após sua morte, sua presença ainda é sentida em cada show que vai fazer. “Eu sinto a energia dela, em todo lugar, ela sempre cativando. Eu tenho que continuar essa história que a minha avó construiu. A importância dela, da luta com os problemas relacionados à nossa cor, ao nosso país, às mulheres, a luta da mulher negra. Eu tenho que continuar esse legado”.

Dona Ivone Lara - Um Sorriso Negro

André participou do musical “Dona Ivone Lara – Um sorriso Negro”, com estreia no segundo semestre de 2019. O espetáculo contava a história da artista desde a fase da adolescência até o casamento com Oscar Costa, filho de uma família tradicional da Serrinha, até a sua consagração no mundo do samba.

“Outro desafio. Fui convidado para participar do musical. Um desafio porque eu canto, componho e toco. E musical tem dança, eu com 1, 96m. Mas aceitei o convite e fui até São Paulo fazer o teste. Entrei. Foram quase dois meses de ensaios no 

Musical Dona Ivone Lara
Dona Ivone Lara - Um sorriso negro

Museu do Samba, todos os dias. Um grande aprendizado porque eu sempre fui um pouco tímido e isso me ajudou com os shows, no meu trabalho, para dar entrevistas. Foi uma experiência muito válida”.

O musical passou por São Paulo e Rio de Janeiro. Já estavam se preparando para viajarem por outros estados brasileiros e, também, para uma turnê pela Europa, que aconteceria em novembro deste ano. Mas, com a quarentena decretada em decorrência da pandemia do novo Coronavírus, todas as apresentações foram suspensas, sem previsão de novas datas.

Dono Ivono e a quarentena
"Ivono" Lara

André Lara arrumou um jeito muito original de homenagear a avó. Dona Ivone Lara usava perucas em suas apresentações e o neto reaproveitava aquelas que já não estavam em uso, para pular o carnaval no Rio de Janeiro, no bloco Boitatá, onde é folião fiel.

“Eu sempre usava as perucas da minha avó e um dia eu peguei o vestido. Até entrevista eu dei nesse dia… Quando acabou o último carnaval e começou essa história da pandemia, eu resolvi fazer

uma homenagem para a minha avó, aproveitando que o aniversário dela estava chegando e fiz uma live caracterizado como Ivono. Ficou muito legal, eu gostei! Mas agora o Ivono não desce mais, agora ele partiu”, diz rindo.

Assim como todos os outros artistas, André teve sua agenda cancelada em virtude da quarentena. As transmissões ao vivo pelas redes sociais, as lives, tem sido a forma que encontraram para manter o contato com os fãs. “Estou pensando em projetos só pro ano que vem. Em 2019 eu lancei meu disco, Doces Recordações, onde gravei 6 músicas. Composições minhas, dela e seus parceiros. Estava fazendo show pelo Brasil todo, mas foram todos cancelados.”

E para 2021, André Lara nos promete surpresas.

André Lara

Seria o ano de centenário de Dona Ivone Lara e em sua homenagem, já está trabalhando no esboço de um projeto para a criação de um instituto, que levará o nome dela, voltado para a arte e esporte. Além de um filme, DVD ou documentário contando sobre a grande Dama do Samba. “Estamos correndo atrás de projetos para uma grande homenagem a ela, bem forte, bem rico. Minha avó deixou melodias prontas e eu estou guardando para pedir aos seus parceiros em vida que façam as letras dessas músicas”.

Para finalizar, André deixa um recado aos leitores do SambaNews e apaixonados pelo samba. “Vamos sambar bastante, nos divertir o máximo que der, com juízo, se cuidando e a aproveitando a família”.

Nome: André Luís Lara Martins da Costa 
Nome artístico: André Lara 
Idade: 39 anos
Signo: Leão

Estado Civil: Solteiro
Escola de Samba do coração: Império Serrano 
Bebida preferida: Cerveja 
Comida preferida: Rabada com agrião 
Perfume: Bvlgari 
Música: Sonho Meu, de Ivone Lara 
Viagem Inesquecível: Nordeste

Sonho: Viver de música

Quer saber mais sobre o cantor André Lara? Acesse as redes sociais:

Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

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