A trajetória de Wagner Santos

Carnavalesco, que viveu os tempos áureos dos concursos de fantasias, brilha em agremiações de São Paulo e é referência em luxo e ousadia

Wagner Santos - Acadêmicos do Tatuapé
Foto: Divulgação | Facebook Acadêmicos do Tatuapé

Com ele, a cidade de Cubatão já virou enredo, assim como fez com Atibaia, no desfile da Acadêmicos do Tatuapé, no carnaval de 2020. Para quem imaginava ver morangos, flores e japoneses na passarela do samba se enganou, porque Wagner Santos mostrou como é fazer, de verdade, um ‘enredo CEP’ (quando homenageia uma cidade, bairro, país ou alguma outra localidade) com categoria e grandeza. De fala forte e direta, Santos é determinado! Talvez seja porque teve que, muito cedo, sair de casa para trabalhar e assim ajudar a mãe, viúva com cinco filhos ainda pequenos para criar. O pai perdeu a vida em um acidente automobilístico, quando, após cinco anos vivendo em São Paulo, fez uma viagem para visitar os pais, em São Luís do Maranhão, cidade natal da família. 

“Eu não tenho formação universitária, porém sou artista autodidata e tenho facilidade em aprender. Basta me interessar pelo assunto ou situação, que já sou capaz de me adaptar e desenvolver técnicas. Na minha época, brasileiro precisava trabalhar para ajudar a família e por isso eu não me formei”, conta Wagner, que nem por isso, deixou de seguir em frente e alcançar seus objetivos.

Wagner Santos teve contato com o carnaval em São Paulo, na adolescência. “Eu tinha um sonho, desde criança, que era o de assistir aos desfiles na Avenida Tiradentes. Aos 16 anos, sem dinheiro para pagar o ingresso nas arquibancadas, eu ficava na concentração ou na dispersão, onde podia ver tudo aquilo de perto e, achando tudo lindo, eu dizia que um dia ia fazer igual”, lembra ele, que chegou na capital paulista, aos seis anos de idade.

Foi então, que começou a colocar em prática, inspirações e técnicas em seus projetos. Na capital paulista tem colaborações e passagens por quatro grandes agremiações: Mocidade Alegre, Vila Maria, Acadêmicos do Tucuruvi (onde ficou por 13 carnavais) e, desde 2018, na Acadêmicos do Tatuapé, onde já conquistou um título, em seu ano de estreia na escola com o enredo Maranhão, os tambores vão ecoar na terra da encantaria, que homenageou sua ‘terra natal’. “O enredo já estava definido. Eu fui convidado pelo vice-presidente, Erivelto Coelho e, na ocasião, ele me disse que só fariam o enredo se fosse desenvolvido por mim. Foi uma honra, o enredo era maravilhoso homenageando a minha origem. Foi tudo perfeito naquela noite porque enxerguei minha cidade, os principais pontos turísticos do Maranhão, as festividades folclóricas. Uma experiência maravilhosa retratar a cultura negra maranhense. Foi um grande presente, juntamente com meu primeiro campeonato, um momento mágico. Eu já tinha batido muitas vezes na porta, mas foi na Tatuapé, que eu bati e entrei”.

Exigente, o carnavalesco faz questão de, assim que toma conhecimento do enredo, realizar um levantamento mais aprofundado e, com olhar técnico, para assim desenvolver o que levará para o desfile. “Para me apegar, fazer minha viagem e delírio em cima do enredo, eu desenvolvo um trabalho de pesquisa. Na Tatuapé, eu posso contar com um departamento cultural, que entrega a sinopse e todo o trabalho de pesquisa, mas eu sempre gostei de buscar mais informações, para assim, ter oportunidade de detalhar as fantasias e demais quesitos. Uma fantasia, por exemplo, você tem que bater o olho e saber o que ela representa. Se tiver dúvida daquilo que está olhando, eu acho que o carnavalesco não foi feliz em sua criação. Só é feliz, quando a mensagem é curta, direta e objetiva. Você olha e já identifica o que é, porque tem que ter elementos que nos levem para aquela ideia da fantasia”, pontua. 

Na era de ouro dos concursos
Wagner Santos
Foto: Divulgação | Facebook Acadêmicos do Tatuapé

Wagner Santos tem um capítulo de sua biografia, passado na Era de Ouro dos tradicionais concursos de fantasias, que ocorriam, principalmente, no Hotel Glória, na capital carioca. Ele é hoje, um remanescente, que traz toda a riqueza de uma época, que marcou o episódio de luxo do carnaval, quando ainda, muitos viam a festa como marginalizada. “Comecei a carreira no Rio de Janeiro participando dos concursos de fantasia com minhas criações. Foi quando eu trabalhei diretamente com grandes nomes do carnaval carioca, que me deixaram uma bagagem cultural muito importante de conhecimento, técnicas como a de como se montar uma fantasia, trabalhar com plumas e pedrarias entre outras. Em uma ocasião, eu levei todos os prêmios das categorias, em uma noite. Sou o último campeão dos campeões daquela época de ouro”, conta. 

Ele se refere aos eventos cheios de glamour, que contavam com participações ilustres de artistas e profissionais, com quem aprendeu muito, como Clóvis Bornay, Evandro de Castro Lima, Jesus Henrique, Geraldo Moreira, Isabela Dantas, Silvinho Fernandes e outros que já não estão mais conosco. Com todo o conhecimento, ele não teve atuação direta no carnaval carioca. “Não atuei como carnavalesco no Rio de Janeiro, mas subi em carros para fazer ajustes em fantasias que eu criei e que foram usadas por grandes destaques da época, durante os desfiles e, também, concorreram nos concursos. Nós produzíamos verdadeiras obras de arte, só com pedrarias originais e verdadeiras, assim como as plumas e as demais matérias-primas. Tenho tudo isso como um legado. Acrescentei muito das técnicas que aprendi ao carnaval paulista”, lembra.

O carnavalesco lamenta a ausência de concursos como os que ele participou e ainda reforça a importância no reconhecimento dos que ainda insistem em investir em lindas fantasias para serem destaques, durante o carnaval. As pessoas não sabem como sofre um destaque que anda até o Anhembi para fazer a alegria do povo da avenida. E ninguém faz nada para homenagear ou dar uma chance para essas pessoas que investem nas fantasias para serem esses destaques. Eles são, nada menos, do que a ponta da nossa árvore de natal, ou seja, as estrelas”.

Carnaval em São Paulo

Entre os destaques em seus trabalhos no carnaval de São Paulo, o Wagner destaca cinco momentos marcantes em sua carreira. O primeiro é quando colaborou no desfile da Mocidade Alegre, em 1998, com Essas Maravilhosas Mulheres Ousadas, segundo ele “totalmente diferente de tudo o que já havia sido feito e com uma comissão de frente esplendorosa”. O outro, na Acadêmicos do Tucuruvi, com a homenagem aos nordestinos que vivem em São Paulo em Oxente, O Que Seria da Gente Sem Essa Gente? São Paulo, Capital do Nordeste (2011).

Carnaval 2008 - Unidos de Vila Maria
Carnaval 2008 - Unidos de Vila Maria

 Além desses, Sonho, Realidade: no Circo da Vida (2005) e Irashai-mase, Milênios de Cultura e Sabedoria no Centenário da Imigração Japonesa (2008), os dois na Unidos de Vila Maria e, em 2018, homenagem a São Luís do Maranhão, em sua chegada na Acadêmicos do Tatuapé.

Além dessas maravilhas, o carnavalesco disse ainda sonhar em levar para a avenida, uma homenagem aos africanos. “Ainda vou levar a saga africana para um desfile porque o carnaval não seria nada sem os africanos e nós devemos muito a eles, que são os donos da festa. Quero falar sobre a trajetória até o Brasil, de uma forma ainda não apresentada e com muita emoção. Nem que seja o último enredo, para fechar com chave de ouro, minha carreira como carnavalesco. Penso sim em parar porque tenho alguns engavetados que precisam acontecer”, revela.

2021 com Preto Velho e Café

No próximo desfile, Wagner Santos irá defender mais um enredo pela Acadêmicos do Tatuapé, pelo quarto ano consecutivo e já está a todo vapor no planejamento. Com Preto Velho. Conta a Saga do Café Num Canto de Fé, ele promete um desfile marcante, grandioso e cheio de emoção. “Estou fazendo com muita satisfação e alegria, porque será uma oportunidade de homenagear um velho conhecido, que é o preto velho com quem tenho uma relação de respeito, além de muita estima pelas almas. O enredo que estamos trabalhando é maravilhoso e as pessoas vão se surpreender em termos de visual”, destaca. 

Segundo Santos, a escola virá muito bonita, com muitos elementos alegóricos para compor as alas, além de trabalhos coreografados como um diferencial. “Já estamos nos adaptando às novas regras da Liga SP trabalhando em todas as possibilidades para levarmos a proposta do enredo, em cima de uma quantidade menor de componentes e alas. Vamos com riqueza e fantasias muito bem elaboradas”. 

Para o desenvolvimento do projeto, o carnavalesco contará com 80 pessoas em sua equipe de execução e, ainda, os que são responsáveis na organização das alas. Ele faz questão de agradecer e valorizar cada um dos envolvidos. “Quero deixar aqui, um recado para a minha agremiação e às pessoas que são apreciadoras dessa festa linda. Eu estou muito feliz em fazer parte da história do carnaval de São Paulo e adianto que estamos preparando mais um grande espetáculo com muito carinho, dedicação e ajuda de muitos profissionais e artistas da escola. O público pode esperar um lindo espetáculo porque a Tatuapé, independente de resultado, pretende fazer novamente, um grande carnaval porque a cidade de são Paulo merece e o povo do samba mais ainda!”, pontua Santos. 

Troféu de Campeã - Acadêmicos do Tatuapé
Foto: Alex Sandro Cordel
Wagner Santos
Premiação Site Carnavalesco
Integrantes Acadêmicos do Tatuapé
Integrantes Acadêmicos do Tatuapé

Mônica Silva

Paulistana, da Freguesia do Ó. Jornalista, assessora de imprensa, especialista em produção editorial para publicações em segmentos diversos. Sempre teve Rosas de Ouro como primeira referência de carnaval. Já desfilou pelo Império de Casa Verde e também frequenta ensaios nas quadras das principais agremiações da zona norte.

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