Eduardo dos Santos, presidente da Acadêmicos do Tatuapé, conta sua história com a escola e o carnaval

Com a proteção de São Jorge e Leci Brandão como madrinha, agremiação tem em sua gestão dois títulos consecutivos, no Grupo Especial

Na presidência da agremiação, desde 2013, Eduardo dos Santos começou a frequentar a quadra, quando nem tinha noção do que era carnaval. Sempre com seu pai, ele ia, praticamente, todos os finais de semana para ‘o beco’, como chamavam o local por ter só uma entrada, na rua Antônio de Barros, no bairro do Tatuapé. “Eu acompanhava todo o movimento, não sabia o que era, mas já gostava! Era uma época em que o carnaval não tinha o tamanho de hoje e não ocupava tanto o tempo das pessoas que eram envolvidas. Meu pai levava a gente para o desfile. Tínhamos verdadeira paixão pela escola do nosso bairro. A criançada participava dos preparativos. Eu mesmo sempre ajudava, colando alguma coisa, cortando fitas ou algo parecido”, conta. 

Eduardo não atuava, diretamente, nas atividades da agremiação, mas viu muitas situações da linha do tempo, por exemplo, quando Roberto Munhoz, presidente na ocasião, retoma as atividades da escola, estagnada desde os anos 80 em decorrência da morte de seu fundador e até então, único na presidência.

“Foram quatro anos sem Acadêmicos do Tatuapé nos desfiles, justamente no momento em que agremiações como Rosas de Ouro, Mocidade Alegre, entre outras, estavam em ascensão e era muito triste não ter nossa escola do coração participando. Umas amigas me disseram que o Munhoz tinha o projeto de reativar para reerguer a escola. Eu me coloquei à disposição e disse que queria estar junto porque tinha o sonho de ver a escola voltar. Fiz isso por paixão ao bairro e à escola”.

Acadêmicos do Tatuapé fez o primeiro desfile em 1990 e Eduardo já estava lá. Porém, de 2007 a 2009 ele decide se afastar por motivos pessoais.

A retomada e amadurecimento da escola

Em 2010, ele retorna e contribui no projeto do enredo As Quatro Estações, produzido por uma comissão de carnaval e que rendeu o título de campeã do Grupo 1, da UESP. Dois anos depois, já no Grupo de Acesso, a escola é vice-campeã com um desfile que foi uma homenagem à madrinha Leci Brandão: Tatuapé 60 anos – da arte do samba, nasci para a comunidade, defesa e essência. Sou guerreira! Sou Leci Brandão! Aliás. Como um ritual, a cantora é sempre a primeira a cruzar a linha amarela no Anhembi e entrar na pista, antes da escola. Seja nos ensaios técnicos ou no dia do desfile oficial.

Leci Brandão - Acadêmicos do Tatuapé
Foto: Instagram | Tatuapé

Depois de ver muitas fases da escola, Eduardo chega à presidência, posto antes ocupado pelo ‘vizinho’ Roberto Munhoz, quando a Acadêmicos do Tatuapé levou para avenida o enredo Poder, fé e devoção. São Jorge Guerreiro, com assinatura do carnavalesco Mauro Xuxa e homenageando o padroeiro da agremiação.  

Depois disso, a agremiação só somou conquistas e com enredos cada vez mais fortes, conquista o segundo lugar, no carnaval de 2016, fazendo uma homenagem à escola de samba carioca de Nilópolis com o enredo: É ela, a Deusa da Passarela – Olha a Beija-Flor Aí Gente!

Até que a ‘glória’ vem com a conquista dos títulos em dois carnavais seguidos: Mãe África conta a sua história: do berço sagrado da humanidade à abençoada terra do grande Zimbábwe, em 2017, com o carnavalesco Flávio Campello e, em 2018, na estreia de Wagner Santos, com o enredo Maranhão, os tambores vão ecoar na terra da encantaria. “Ele é maranhense e chegou exatamente no momento para trabalhar no projeto do enredo falando sobre o estado dele. Está conosco há quatro anos e tenho certeza que no próximo carnaval fará um trabalho maravilhoso”, pontua. 

Desfile 2017 - Acadêmicos do Tatuapé
Desfile 2017 - Acadêmicos do Tatuapé
Valorizando as Pratas da casa

A Acadêmicos do Tatuapé é uma escola que investe na preparação e formação de seu elenco. Não à toa, dificilmente mexe em sua composição, principalmente dos que estão nas chefias de alas. Valorizam e absorvem a prata da casa. “Não somos uma escola contratadora de mão de obra e vamos sempre desenvolver projetos para a formação do elenco. Nossa harmonia, por exemplo, já está na segunda geração de pessoas formadas dentro da escola. O Edu Sambista veio para ser componente de ala. Começamos a trabalhar virou chefe de ala, harmonia, coordenador, até diretor geral. Um dia, ele não pôde continuar sendo diretor e o substituímos por duas pessoas que foram formadas por ele e tiveram a mesma trajetória, a Fabiana Lopes e o Gilberto Silva, na direção de harmonia e evolução. Isso fazemos em todos os setores da escola. Se mudamos é para corrigir uma situação que nem sempre é criada por nós”, comenta.  Segundo o presidente, será o terceiro desfile com o mesmo elenco dos últimos três anos.

1° Casal - Acadêmicos do Tatuapé

Entre ele está o intérprete Celsinho Mody e o 1º casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego do Nascimento e Jussara de Souza, que apresentam o pavilhão da Acadêmicos do Tatuapé, desde 2012. Eles, inclusive,  encabeçam um projeto de formação de novos casais, chamado Casal Foguinho, de onde saem os outros casais da escola,  incluindo o mirim.

“Não faz o menor sentido formar um casal e não utilizar. Isso deve ser valorizado. Não temos quadro fixo e para que possam participar dos desfiles, eles precisam ter um ótimo desempenho no curso e se destacar”, pontua.

2021 com Preto Velho e café
Enredo 2021 - Acadêmicos do Tatuapé

Mesmo com as incertezas e muitas especulações sobre a realização do carnaval, a Acadêmicos do Tatuapé, assim como suas coirmãs, não deixaram de trabalhar. O enredo já foi anunciado, no dia do 23 de abril, dia de São Jorge, porém sem festa, via internet, por conta do isolamento social. A tradicional feijoada foi preparada e distribuída na comunidade dos arredores da quadra. 

Preto Velho. Conta a saga do café num canto de fé, mais uma defesa de Wagner Santos, que já trabalha no desenvolvimento do tema. “Qualquer componente pode sugerir enredos na Acadêmicos do Tatuapé. Já tínhamos pensado em falar sobre preto velho, a entidade, assim como já havíamos cogitado fazer algo contando a história do café. Este ano conseguimos unir as duas coisas e vamos fazer de forma inusitada, ou seja, o próprio preto velho vai contar todas as etapas do café no Brasil”, explica Santos.

No carnaval 2020, a Acadêmicos do Tatuapé foi a 4ª colocada garantindo presença no desfile das campeãs. Para o próximo, nada foi dito de concreto sobre qualquer decisão relacionada ao evento e as expectativas são muito grandes.

“Tudo isso é uma incógnita. O que eu penso é que o próximo carnaval será bonito, emocionante, até por conta de tudo o que estamos vivendo. Já estou velho e nunca tinha passado por isso de confinamento, isolamento social e de não ter perspectiva de quando vai acabar. Isso vai trazendo um clima de ansiedade e indecisão, que se tivermos um carnaval lá na frente para extravasar, será legal”, conclui.

Eduardo dos Santos na Tatuapé
Eduardo Santos | Tatuapé

Mônica Silva

Paulistana, da Freguesia do Ó. Jornalista, assessora de imprensa, especialista em produção editorial para publicações em segmentos diversos. Sempre teve Rosas de Ouro como primeira referência de carnaval. Já desfilou pelo Império de Casa Verde e também frequenta ensaios nas quadras das principais agremiações da zona norte.

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