Flávio Campello – Trajetória, chegada na Tom Maior e a luta contra a COVID-19

Já recuperado, carnavalesco trabalha enredo inspirado no clássico O Pequeno Príncipe, que terá versão em cordel na avenida

Flávio Campello
Foto: Reprodução Facebook

Carioca ‘criado e crescido’ em Ramos, bairro carioca considerado o Berço do Samba. Não tinha como ser outro, o destino de Flávio Campello, carnavalesco, historiador, cenógrafo, figurinista e um apaixonado pelas artes em geral. A história dele com o carnaval tem uma relação forte e afetiva com a Imperatriz Leopoldinense, onde seu pai fazia parte da diretoria e sua mãe da ala das crianças, onde ele teve estreia em desfiles. Depois disso, a paixão só aumentava. 

Sobrinho do carnavalesco carioca e, também cenógrafo, Arlindo Rodrigues, Campello teve seu primeiro contato com um barracão, em 1982, quando seu tio desenvolvia o enredo Onde Canta o Sabiá, uma homenagem ao poeta Gonçalves Dias. “Um dia, no barracão, eu vi uma alegoria de sarau que me chamou muita atenção. Foi ali que eu decidi o que queria fazer”, lembra. 

Campello, que sempre teve habilidade para trabalhos manuais, assim como para o desenho, costumava pedir de presente de aniversário, fitas VHS para gravar os desfiles e assim poder assistir quando quisesse, e dando pausas, para também ‘copiar’ as fantasias em folhas de papel.

O carnavalesco, formado em arquitetura, assinou seu primeiro carnaval em 1999, na escola Lins Imperial, onde desenvolveu um enredo baseado no livro ‘Damas Negras’, de Sandra Almada, em homenagem a Ruth de Souza, Léa Garcia, Chica Xavier e Zezé Motta, verdadeiras damas negras da dramaturgia brasileira. Naquele início, ele teve como referência, ninguém menos do que Rosa Magalhães, que desenhava fantasias da Imperatriz Leopoldinense e, inclusive, o inspirou a buscar por uma formação em cenografia e artes cênicas.

Destaques no carnaval de São Paulo

A estreia do carnavalesco no carnaval paulistano se deu em 2009, quando fez parte de uma comissão de carnaval na Mocidade Alegre e já conquistou seu primeiro título na Terra da Garoa.

Depois disso, alguns acontecimentos fortes passaram a marcar sua trajetória. Campello passou por X-9 Paulistana, Dragões da Real, Acadêmicos do Tatuapé (onde conquistou um título em 2017), Acadêmicos do Tucuruvi, onde em 2018 passou por um momento trágico, quando o barracão foi tomado por fogo que destruiu mais de 80% das fantasias, praticamente na véspera do desfile que tinha como enredo Uma Noite no Museu

Flávio Campello
Foto: Reprodução Facebook | Felipe Araújo - Liga SP

“Eu costumo dizer que ali eu vi e senti as cinzas da quarta-feira. Foi quando pela primeira vez, eu perdi o chão durante um trabalho no carnaval. O projeto era lindo, mas foi a experiência mais triste que vivenciei”, lamenta.

Em 2019, Campello foi para Império de Casa Verde, onde conseguiu um marco, que foi levar nerds e geeks para a avenida com o enredo O Império Contra-Ataca, que homenageou a sétima arte, uma das paixões do carnavalesco. Ainda na escola, em 2020, ele desenvolveu um enredo tendo como tema o Líbano para onde viajou e de lá, fez um anúncio ao vivo, por meio de uma live. O desfile foi grandioso, porém o atraso da escola anterior prejudicou a agremiação, que entrou na avenida com o dia amanhecendo, o que não estava nos planos. “O Império de Casa Verde me deu muitas condições de trabalho para este projeto. O único problema foi o atraso nos levando para um desfile a luz do dia e nós tínhamos apostado bastante em iluminação nos carros”, aponta.

2021 na Tom Maior com O Pequeno Príncipe em Cordel
Flávio Campello
Foto: Reprodução Facebook

Hoje, Campello assina como carnavalesco da Tom Maior e já trabalha em enredo que é inspirado em um dos grandes clássicos da literatura, O Pequeno Príncipe. Porém, para o desenvolvimento do desfile, ele tem como ‘linha mestra’, a versão brasileira com o livro O Pequeno Príncipe em Cordel, de Josué Limeira e ilustrado por Vladimir Barros, que hoje assina as artes do enredo. 

“Este é um clássico da literatura infantil, mas que vejo como indicado para todas as idades. A direção da escola já tinha em mente preparar um carnaval com o tema, até nos depararmos com a obra em versão de cordel. Fiz contato com autor e ilustrador por meio das redes sociais e eles estão conosco no projeto. Espero levar para a avenida, um projeto que toque no coração de todos, pois este é um enredo divino com uma infinidade de mensagens. Será um presente para todos nós!”, destaca.

Tom Maior 2021
Foto: Enredo Tom Maior 2021

Por conta do isolamento social, o carnavalesco ainda não teve contato com a comunidade da Tom Maior, mas ele já está trabalhando muito no projeto e diz já ter fechado o roteiro do desfile e também o desenho de cinco fantasias. “Quero muito celebrar o fim do confinamento podendo abraçar cada um e olhar nos olhos comemorando o fim da doença. Será um momento único nas nossas vidas. Pretendo proporcionar uma linda surpresa na avenida. Este projeto ficará na memória para o resto da vida com a minha superação e estou trabalhando nele para tocar na alma e sentimento de todos”, pontua. 

Campello já fez a explanação do enredo para os compositores e agora aguarda as criações. “Esperamos que nos contemplem um samba-enredo a la Tom Maior, que tem um histórico de sambas muito fortes! A escola vem em uma crescente muito gostosa de ver, sentir e me passa muita confiança. Estou feliz”, destaca.

COVID-19

Campello passou recentemente por mais uma experiência dolorosa. Desta vez foi por conta do coronavírus. Ele ficou internado por mais de 20 dias, período em que enfrentou uma UTI, durante oito dias. Teve alta recentemente e está se recuperando com cuidados redobrados e algumas mudanças de hábitos alimentares, inclusive.

“Nunca acreditamos que a pedra vai cair em nosso telhado. Eu sempre me protegi muito, desde o início da pandemia. Até que um dia comecei com os sintomas leves para depois de 15 dias sentir uma falta de ar bem específica. Foi então que corremos para o hospital, onde fiquei por quase um mês e tive um período em coma. Tive muito medo porque não podemos ter contato com a família. O vazio de uma perda leva a vida inteira para você carregar. Então vamos pensar em nossa saúde e respeitar o isolamento social”, alerta.

Flávio Campello
Foto: Reprodução Facebook

Sobre a realização do carnaval em 2021, Campello pensa positivo: “Carregamos a esperança como se fosse acontecer o carnaval, por sua importância para a sociedade, além do impacto na geração de empregos. Tem muita gente ansiosa, nós que fazemos e dependemos e os demais. O carnaval está na UTI, mas daqui a pouco vai para a enfermaria e estará recuperado”, conclui.

Mônica Silva

Paulistana, da Freguesia do Ó. Jornalista, assessora de imprensa, especialista em produção editorial para publicações em segmentos diversos. Sempre teve Rosas de Ouro como primeira referência de carnaval. Já desfilou pelo Império de Casa Verde e também frequenta ensaios nas quadras das principais agremiações da zona norte.

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