O nome dela é Angelina Basílio

Há quase 20 anos, ela assumiu a presidência da Sociedade Rosas de Ouro, já acumula um título em sua gestão e passou por dificuldades no meio do caminho, incluindo um atentado

Angelina Basílio
Foto: Felipe Araújo | Reprodução Facebook

Filha única, ela estava sempre ao lado do pai, Eduardo Basílio, um homem muito conhecido no bairro da Brasilândia, em São Paulo, onde hoje há duas ruas com nomes dos avós materno e paterno dela. Atuante, ele buscava por melhorias e por isso era muito popular. Angelina já foi porta-bandeira, destaque de ala, diretora de ala, integrou comissão de frente, diretora social e de carnaval.

Meu pai era muito visionário. ainda na década de 70, já dizia que a Rosas de Ouro nasceu para ser grande. Em 1978, ele foi pessoalmente falar com o então prefeito, Reinaldo de Barros, quando se interessou por aquele terreno onde estamos instalados. Ali era tudo brejo e achavam uma loucura, ele querer construir algo ali. Meu pai dizia que ia construir uma cidade do samba e nós fomos uma das primeiras, senão a única da época, a ter um complexo de quadra, barracão e outros departamentos, em um só lugar”, lembra a presidente. 

Mas como ‘nem tudo são rosas’, Angelina conta que, desde a morte de seu pai, em 2003, quando assumiu a presidência da agremiação, até os dias atuais, são muitas as dificuldades.

Angelina Basílio
Foto: Reprodução Facebook

 “Só eu sei o que passei para chegar até aqui. Eu já sofria preconceito no colégio de freiras onde estudei, porque meu pai era ‘envolvido com carnaval’ como diziam. Naquela época frequentar uma quadra de escola de samba era algo muito marginalizado. Eu como era filha do Eduardo Basílio, um dos fundadores, enfrentei muito preconceito. As pessoas me olhavam torto na rua. A cidade de São Paulo naquela época era reconhecida como a capital de negócios e carnaval era algo muito marginalizado”, lembra. 

Porém, Angelina não desistiu e, segundo ela, sob a proteção de anjos da guarda, seguiu em frente. Em 2011, ela sofreu um ‘quase atentado’. Saindo da quadra à noite, depois de um dia todo trabalhando, ela percebeu um carro e uma moto seguindo sua rota. “Eu estava saindo da nossa sede, quando vi um carro e uma moto vindo em minha direção. Até que atiraram e acertou meu braço. Eu fui sozinha até um hospital, com muito medo. Quando cheguei em casa, eu pensei em desistir. Tive uma ‘conversa’ com meu pai dizendo que não queria mais saber de carnaval. Até que ouvi uma voz, como do meu anjo da guarda, que dizia para eu ficar que a escola ia ganhar aquele carnaval e eu ia para a avenida, no desfile das campeãs usando o blazer dele”, lembra ela. “Naquele ano, a Rosas de Ouro conquistou o título com o enredo Cacau: um grão precioso que virou chocolate, e sem dúvida se transformou no melhor presente, assinado pelo carnavalesco Jorge Freitas“.

Armênia: um enredo para a vida
Angelina Basílio
Foto: Reprodução Facebook

Em 2019, a escola foi para a avenida fazendo uma homenagem à comunidade armênia levando o enredo Viva Hayastan!, assinado por André Machado. durante a concepção do projeto, Angelina foi pessoalmente até a Armênia, onde passou por lugares históricos, entre eles o Monte Ararat, que para ela fez toda a diferença e a aproximou ainda mais do povo e sua cultura. Aquilo estava no meu destino e no da Rosas de Ouro. Falei de genocídio e de um povo que foi expulso da própria terra. Quando entramos na avenida foi uma magia. Quando o André decidiu o enredo eu achei estranho, mas amei ao mesmo tempo e, como o universo conspira a favor, os donos de uma marca parceira nossa, há oito anos, é armênio”, conta.

Angelina Basílio
Foto: Reprodução Facebook

Depois do carnaval, Angelina continuou encantada com toda a história e manteve devoção e relacionamento com os armênios. “Minha vida se transformou depois deste enredo e eu hoje sou católica-armênia. Eles têm uma fé muito forte! Há dois anos, eu sou devota de São Gregório, o Iluminador. Foi ele que levou o cristianismo para o povo armênio, uma espécie de mentor. A Armênia entrou na minha vida e eu me considero da comunidade. Ter visitado o país, conhecer o Monte Ararat, a maneira como eles respeitam o Cristianismo, por exemplo, me fez enxergar muitas coisas e, inclusive, a acreditar que Noé passou por ali com a Arca. Te digo mais, eu não sei o que é, mas os armênios ainda voltam para a Rosas de Ouro”, reforça.

Assistencialismo forte

Em tempos de pandemia, as ações sociais nas agremiações têm sido intensas. Na Rosas de Ouro não poderia ser diferente, já que tem em sua marca, o DNA de assistencialismo vindo do seu fundador, desde os tempos em que ele fazia parte da Sociedade Amigos do Bairro, da Brasilândia. 

Angelina tem uma frase que é como um mantra e tem funcionado atualmente para a arrecadação de donativos que são distribuídos entre famílias em situação de vulnerabilidade: Quem tem parceria, não fica na estrada! Graças aos parceiros e sua diretora social, Vanessa Dias, juntamente com toda a equipe, a Rosas de Ouro tem mantido uma rotina social realizando doações pontuais de leite, fraldas, cestas básicas, entre outros itens. Vale ressaltar, que as ações já ocorriam normalmente, mesmo sem pandemia, mas que se intensificaram com o cenário atual. 

Se eu sou incansável, a Vanessa é maluca e incansável em ajudar. Nosso assistencialismo sempre foi muito forte! Muita gente gosta de dizer que escola de samba só faz carnaval, mas nós temos também uma ligação muito forte com o lado social. As agremiações têm sido muito atuantes neste momento de pandemia. Quando você pensa positivo, o universo conspira e vai trazer.  As ajudas têm chegado e estamos atendendo muita gente“, comemora.

A escola mantém há 20 anos, o projeto Samba Se Aprende na Escola, que foi idealizado pelo eterno presidente Eduardo Basílio, está atendendo cerca de 500 famílias e outras instituições nesse momento da crise do Covid-19. “Estamos pensando diariamente em soluções para minimizar as preocupações dos que estão passando por um momento difícil por conta da crise atual”, diz a presidente.

Desde o início da pandemia do coronavírus e do isolamento social, o projeto social vem atendendo famílias que estão em situação mais vulneráveis e com o apoio dos parceiros do departamento, criou a ‘Sacolinha Roseira do Bem’, que semanalmente terá uma diversidade de alimentos que são entregues.

2021 com a cura na avenida
Enredo 2021 - Rosas de Ouro
Enredo 2021 - Rosas de Ouro

Para o próximo carnaval, a escola levará para o sambódromo, uma mensagem muito forte de cura com o enredo Sanitatem que tem projeto assinado pelo carnavalesco Paulo Menezes, que foi contratado este ano. “O Paulo vai falar sobre os rituais da cura. Precisamos sempre acreditar na cura do espírito e da alma. Na verdade, o homem já sabia que ia acontecer alguma coisa nesse sentido de tudo o que estamos vivendo. Estávamos correndo atrás do nada, essa é a verdade. Como um cachorro em círculo seguindo o rabo. Tínhamos que parar. Mesmo assim tem muita gente que ainda não vai se curar”, ressalta.

Ela comenta que a escola está a todo vapor, se preparando para o próximo carnaval. Sobre a realização no próximo ano, ela acredita que haverá! “Eu acredito que teremos sim carnaval, porém, em um formato mais light, tranquilo. Até agora, o trabalho foi tranquilo, porque não requeria presença para algumas definições, porém a agenda de carnaval vai começar a ficar complicada, daqui pra frente porque precisamos entrar na etapa de execução, momento de barracão, preparar os protótipos das alas, escolha de sambe enredo e ensaios”, pontua. 

Angelina Basílio é forte, guerreira e nunca vai desistir de continuar o legado que seu pai deixou. Coração gigante, ela sempre pensa no próximo e conta com muitos ao seu redor para cumprir a missão. Sabe que muitas coisas ainda podem acontecer, mas ela não deixa de acreditar e se apegar às suas crenças e, principalmente ter muito ‘pé chão’ levar tudo adiante e conduzir a quase cinquentenária Sociedade Rosas de Ouro. “Nunca foi fácil substituir meu pai, mas eu costumo dizer que a caminhada é longa e cheia de sabedoria!”, conclui.

Angelina Basílio
Foto: Reprodução Facebook
Angelina Basílio
Foto: Reprodução Facebook
Angelina Basílio
Foto: Felipe Araújo | Reprodução Facebook

Mônica Silva

Paulistana, da Freguesia do Ó. Jornalista, assessora de imprensa, especialista em produção editorial para publicações em segmentos diversos. Sempre teve Rosas de Ouro como primeira referência de carnaval. Já desfilou pelo Império de Casa Verde e também frequenta ensaios nas quadras das principais agremiações da zona norte.

Compartilhe com os amigos:

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

Acompanhe nossas redes

Mais Populares

Scroll to Top