Rene Sobral, a voz da Caverna do Dragão, comunidade de gente feliz

O intérprete oficial da Dragões da Real, conta como cresceu, se profissionalizou e tornou-se um dos principais cantores do carnaval de São Paulo

Rene Sobral
Foto: Reprodução Facebook

Com 20 anos de carreira, o paulistano Rene Sobral, intérprete oficial da Dragões da Real, nasceu no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Desde muito cedo gosta de música. O pai era um ouvinte apaixonado da MPB, “forrozeiro danado”. Seu tio-avô, sanfoneiro. Mas foi no samba que Rene se encontrou e trilhou seu caminho. “Eu sempre gostei de música. Sempre fui pro samba. Desde pequeno ouvia rap, forró, todo tipo de música brasileira boa. Porém, eu sempre fui da roda de samba, tocava pandeiro e cantava”.

Conhecido nas rodas, o cantor diz que o fato de se tornar intérprete veio por acaso. “Eu gostava de cantar, tocar pandeiro e no final das apresentações eu sempre cantava samba-enredo. Meu envolvimento com as agremiações era só pelas rodas que fazia nas quadras. Nunca tinha pensado em ser intérprete porque achava que não teria condições, que teria que ter um dom especial pra segurar uma escola”.

A oportunidade de entrar, finalmente, para o time dos intérpretes, chegou através de um convite para participar de uma eliminatórias de samba-enredo. Quem o levou foi Bagulé, na época, mestre de bateria da Barroca Zona Sul. “Ele, junto com uma turma, disputava o samba em várias escolas. Aí me convidaram pra participar das eliminatórias na Mocidade Alegre e foi aí que começou”. Nesse momento, Sobral percebeu que podia, sim, ser um intérprete e viver da música. “Corri atrás, me aprofundei na profissão e fui atrás. Sempre fui fã de Jamelão, de grandes nomes do carnaval. Isso me impulsionou a buscar melhorias. Estudei interpretação, tudo dentro do contexto de carnaval, porque não era só chegar e cantar. Tinha que ser feito algo mais para ter um diferencial, senão ia ser só mais um com uma voz bonitinha, afinado. Não queria passar batido, mas sim ter o meu espaço dentro do carnaval e eu vi que tinha oportunidade”.

A caminhada até chegar na Dragões

Rene começou no carnaval fazendo coro, como apoio na Mocidade Alegre. Ele relembra que a oportunidade veio da finada presidente da agremiação, Elaine Bichara, em 2001. Sobral cantou ao lado de Daniel Collete, que neste ano era o intérprete oficial da escola. ”Eu também fiz parte da ala musical da Barroca Zona Sul, no comando de Agnaldo Amaral, que era o intérprete oficial. Essa foi a minha escola. Então eu brinco com o pessoal: não vem falar de mim não porque eu fiz faculdade, eu fiz Barroca Zona Sul, eu fiz faculdade do samba”, conta aos risos.

O intérprete também teve uma passagem longa pela Tom Maior e saiu da agremiação após aceitar o convite para ingressar a Dragões da Real. A escola estava com um novo projeto e faltava um intérprete. Eles queriam algumas coisas que eu tenho e acharam que poderia encaixar com o momento que a escola estava vivendo, de transição. Esse casamento começou em 2017, no enredo ‘Dragões Canta Asa Branca’. Foi o divisor de águas da Dragões. E graças a Oxalá deu muito certo! A comunidade me abraçou muito bem. Era uma missão muito difícil porque eu entrei para substituir o Daniel Collete, um grande intérprete, que eu sou fã. Um dos caras que eu admiro muito. “

“Deixou um legado lá maravilhoso e foi uma responsabilidade, muito maior em levar a escola, não deixar a peteca cair. Fizemos um carnaval maravilhoso, o samba também ajudou bastante e eu consegui interpretar muito bem. Fiz minhas alterações de alguns arranjos, algumas coisas pra deixar um pouco mais no meu estilo e fluiu”.

Fã confesso dos baluartes das escolas de samba, Rene fala que é apaixonado e presta uma homenagem a todos na forma que se veste para as apresentações. “Esse é um dos motivos, além do meu padrinho Zé Pilintra, porque eu gosto de me vestir de branco no samba, estar alinhado. Eu vejo a velha-guarda assim, isso me inspirou. Sou apaixonado por velha-guarda”. E o sonho de Sobral não poderia ser outro: ser campeão do carnaval com a Dragões.

Covid-19 e Carnaval 2021

Rene Sobral viveu de perto o drama imposto pelo novo Coronavírus. Seu pai faleceu, recentemente, vítima do Covid-19. Diante de toda essa situação dramática, tem opinião formada sobre o acontecimento do próximo carnaval. “Muito triste não ter uma perspectiva positiva de que vai passar. O povo não respeita muito. Vai ser difícil entrar num consenso, cada um pensa numa forma, uns se protegem, outros não. Vacina terá que ser obrigatória, senão, infelizmente, não vai ter carnaval. O nosso intuito é aglomerar pessoas e do jeito que está fica muito difícil. Eu oro todos os dias para que os deuses da medicina encontrem uma saída, que seja igual para todos. Achar uma cura, uma vacina, para que todos possam sair, se abraçar. Se tiver uma vacina, teremos carnaval. Se não tiver, poderia ter algo simbólico, para não deixar passar em branco, com muito cuidado, muita proteção. Algo monitorado pela parte de saúde, de segurança, para que o povo de casa possa ver um espetáculo um pouco mais reduzido”.

Rene Sobral

Ao contrário de outros artistas, Rene demorou um pouco para entrar no mundo das lives. Para ele, que comanda o Terreirão do Sobral, aos domingos, na sede do Moleque Travesso, organizar uma live vai além do divertimento. É fácil fazer uma live com um monte de patrocínio e um monte de gente botando dinheiro na sua conta. Porém, temos músicos pra pagar, tem uma classe artística que é da base, 

do anonimato, que está sofrendo muito, dependendo desses R$ 600,00 do governo, que está ajudando muito, mas que não tem uma outra fonte de renda, a não ser tocar um pandeiro. Então, fiquei desanimado, no momento crítico da pandemia”.

Hoje, depois de participar de algumas lives da Dragões da Real, ele até planeja marcar uma do Terreirão do Sobral, mas para que aconteça está buscando patrocínio. Rene aproveitou a oportunidade e deixou uma mensagem para os fãs e para a comunidade da Dragões. “Os momentos são difíceis, porém temos muita esperança que tudo vai passar… Todo mundo aí, juízo! Só saia de casa se for necessário mesmo. Logo estaremos fazendo samba para desanuviar essas coisas ruins”, finaliza o intérprete.

Rene Sobral
Foto: Reprodução Facebook

Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

Compartilhe com os amigos:

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email
Scroll to Top