Netinho de Paula, o ídolo do Pagode 90

Netinho conversou com o SambaNews e contou como foi sua trajetória, desde a saída da Cohab de Carapicuíba até a chegada às telas de TV

Netinho de Paula
Foto: Reprodução | Facebook

José de Paula Neto, o Netinho de Paula, é cantor, compositor, apresentador e político. Mas foi preciso percorrer um longo caminho de dificuldades para chegar onde chegou. Nascido numa família humilde e festeira, Netinho conta que sua veia musical é herança. A mãe, durante a adolescência, fez parte de um grupo musical e seus tios integravam uma banda chamada Os Nômades.

Seus pais se conheceram no final das anos 60 e casaram-sem em 1970. Netinho nasceu pouco tempo depois, mais precisamente, em 11 de julho de 1970. Após seu nascimento, o canceriano mudou-se com a família para um conjunto habitacional em Carapicuíba, onde passou sua infância e pré-adolescência. “Quando eu tinha 11 anos, minha mãe faleceu. Então, saí da Cohab e fui morar no Parque Ipê, zona sul de São Paulo. Ali, eu vi de perto o que era, de fato, a criminalidade. A falta de apoio dos órgãos públicos. Eu cresci no meio de uma área muito violenta. Ainda que, a minha família lá, era um pouco mais estruturada porque era a família dos meus avós, mais velhos.Mas, a gente era cercado de muita miserabilidade, de muita pobreza”.

Netinho e o irmão Edson
Foto: Reprodução Facebook

Nesse período, outro fato triste marcou a vida do cantor. “Nesse ciclo, eu perdi o meu irmão. Nós éramos em 3, eu era o mais velho e o do meio faleceu, fruto dessa convivência com marginalidade. Foi um sofrimento muito grande e fez com que eu saísse do Parque Ipê e ficasse andando mais com os meus amigos, que eram da Saúde e tinham um grupo chamado Novo Estilo. Foi ali que me aperfeiçoei tocando.” 

Aos 15 anos, mais uma reviravolta na vida do artista. Sua namorada da época, engravidou. Netinho, então, volta a morar no apartamento que era da família em Carapicuíba e aí reencontra seus amigos de infância, os integrantes do Negritude Jr.

De Carapicuíba para as paradas de sucesso

Netinho passou a integrar o Negritude Jr. quando voltou a morar na cohab. O grupo que era formado por seus amigos de infância e estava em fase de retorno, quando Netinho voltou para o seu convívio. Em 1989, decidem participar de um festival de música da escola de samba Camisa Verde e Branco. “A gente ganhou o festival no Camisa e aí a nossa vida, de fato, se transformou. Viramos músicos profissionais e aí fomos gravar nosso primeiro disco na gravadora Zimbabwe”.

Com a nova carreira começando, Netinho, superintendente de banco, atuando na área de seguros, não conseguiu mais conciliar as duas profissões. “Passamos um ano em estúdio. Em 1991, fizemos o nosso lançamento e daí pra frente foi uma jornada de muito sucesso. O pagode virou um movimento e nós que encabeçávamos, junto com alguns outros grupos como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Art Popular… O Negritude foi longe, se tornou um grupo conhecido nacionalmente.” 

Ao longo da carreira, o grupo emplacou grandes sucessos: Jeito de Seduzir, Tanajura, Cohab City, Timidez entre muitas outras.

Ídolos e influenciadores

Netinho teve muitos ídolos de infância e adolescência, mas dois grandes nomes da MPB foram seus maiores influenciadores. “Em performance, a minha influência total foi de Wilson Simonal. Na casa da população negra, brasileira, especialmente em São Paulo, todo mundo cresceu ouvindo e curtindo Simonal, Jorge Ben Jor, Tim Maia. E na minha adolescência eu pude me deparar com uma voz, que me encantou, a tal ponto, de querer um dia poder cantar igual, que é o saudoso Emílio Santiago. Sempre foi muito ídolo pra mim”

Com os parceiros do Negritude Jr, a inspiração vinha de bandas negras como Earth On The Flyer e os Jackson Five. “A gente olhava os vídeos e dizia ‘o samba tem que ter isso”. Foi o caminho que a gente encontrou para se diferenciar. Os artistas Stevie Wonder, Boyz II Men, na nossa adolescência, nos influenciaram muito. A música negra dos bailes da Chic Show, do Zimbabwe, que veio a ser a nossa gravadora depois. Devemos muito ao Pelé Problema porque ele acreditava nos nossos sonhos e ele era o maior promotor de eventos que tinha em São Paulo, na nossa geração.”

Netinho de Paula
Foto: Reprodução Facebook
Os palcos da TV

“Juntos por 15 anos, a gente começou a sonhar com outras possibilidades, que foi de ir pra televisão, onde já frequentávamos, cantando. Eu recebi o convite para apresentar o quadro da princesa no programa do Gugu. Fiquei dois anos no SBT e depois fui convidado para trabalhar na Record, onde fiquei por mais 7 anos.”

Princesa do Netinho
Foto: Reprodução Facebook

O quadro “Princesa do Netinho” ficou marcado. O cantor escolhia, através de cartas enviadas ao programa, uma menina, quase sempre moradora de periferia, para ter um dia de princesa ao seu lado. Netinho ia até a casa da escolhida, conhecia sua história de vida e aí, sim, começava seu dia ao lado dela. As princesas eram levadas ao shopping, onde renovavam seu guarda roupa, cabeleireiro e maquiagem e, ao final do dia, celebravam com um jantar especial ao lado do ídolo. Muitas delas eram presenteadas com cursos profissionalizantes e, até mesmo, saiam do quadro com novos empregos.

“Culturalmente, o dia de princesa faz parte, hoje, da vida do brasileiro. Depois desse quadro, já em carreira solo, eu voltei para a Record com um programa só meu. E hoje, estou na Redetv, aos domingos, onde trouxe de volta o quadro Dia de Princesa.  Por incrível que pareça, as minhas princesas de hoje, são as meninas da nossa época, que sonhavam com isso, que hoje já são mães e que eu continuo realizando esses sonhos. Pra ser princesa, não tem idade, o sonho não envelhece”.

Amigos do Pagode 90
Amigos do Pagode 90
Foto: Divulgação | Leo Franco | Base90

O pagode foi um fenômeno musical nos anos 90. Muitos grupos fizeram sucesso na época e para resgatar toda essa história, foi criado, recentemente, o projeto “Amigos do Pagode 90”, reunindo grandes ídolos desta época de ouro. 

“O Salgadinho me convidou para o projeto e desde o ano passado, nós temos feito turnê no Brasil todo. É incrível a emoção de encontrar essas pessoas, nossos fãs, com seus filhos, curtindo e cantando as nossas músicas. Dá uma sensação de que tudo valeu a pena”, fala Netinho. “A nossa geração, dos anos 90, não vai carregar aquele fardo de dizer que a gente cantava lixo, que a gente cantava coisa que dá vergonha. Tem artistas que não vão ter coragem de mostrar para os filhos o que gravaram. Nós temos orgulho”.

Carreira política

Com a visibilidade na TV, Netinho recebeu um convite para integrar um partido político e em 2008 foi eleito vereador em São Paulo. “Tive dois mandatos de vereador na capital. Também de deputado federal, fui candidato ao senado, pré-candidato a prefeito. E é quando você sai da linha de conforto para ir de verdade, para você poder fazer críticas mais contundentes e de realidade, de como vive a nossa sociedade. E eu acho que foi uma experiência maravilhosa. Esses 9 anos que eu me dediquei à política foi de doação mesmo”, conta Netinho. 

Durante o seu mandato, Netinho foi responsável pela Secretaria de Promoção de Igualdade Racial, onde pôde conviver com setores públicos, voltados para a questão que ele sempre defendeu. “Vim da negritude, não dava para não defender isso na secretaria que eu fui responsável e, de ver também, como a nossa comunidade tem muito a oferecer e muito ainda pra poder crescer.”

Pai e avô de família

Netinho de Paula é pai de 7 filhos. O cantor ViniGram, que está lançando carreira solo, Levi, Dika e Dudu, integrantes do grupo Os de Paula e, ainda, Dandara, Agatha e Jackson. Além do amor pelos filhos, Netinho curte a melhor fase da sua vida, com a convivência com os netos. “Quando eu tinha 30 anos, no início dos anos 90, eu já tinha atingido financeiramente um sonho que nunca podia ter imaginado alcançar. Eu pude me dedicar muito aos meus filhos e fazer com que eles tivessem uma outra qualidade de vida. São todos meninos muito bem criados, 

Netinho de Paula e filhos
Foto: Reprodução Facebook

estudados, com uma cultura bacana e puderam seguir na vida o que eles quiseram, o que eles sonharam. Eu dei todas as condições para que eles pudessem escolher seus caminhos. E hoje estou curtindo a melhor fase da vida, que é curtir os meus netinhos. Isso é a minha alegria e eu me sinto muito realizado. Eu aprendi com os meus erros, eu reconheço as minhas virtudes, eu me perdoo pelos meus erros. Eu não vivo preocupado com nada, eu sou muito de bem com a vida.”

Em tempos de quarentena
Netinho de Paula
Foto: Reprodução Facebook

Diante da pandemia do novo Coronavírus, assim como outros artistas, Netinho de Paula cancelou toda a sua agenda, que contava com uma média de 15 shows por mês. Mas está confiante que todo esse quadro vai ser revertido em breve e que as pessoas sairão diferentes dessa experiência.

“Temos aprendido muito com tudo isso. Essa solidão forçada, de não poder abraçar quem a gente gosta, quem a gente ama, faz com que a gente valorize mais as pessoas. Eu acho que quando voltar, porque eu acredito que vai voltar logo logo, os artistas vão ser mais carinhosos com os seus fãs, as pessoas vão ser mais generosas na internet, que é terra de ninguém. As hostilidades serão mais amenas, estava todo mundo muito agressivo. Para o artista, o que valia era a quantidade de seguidores nas redes sociais, não a atenção dispensada com os seus fãs. E para os fãs, essa liberdade na internet de falar o que quer, de xingar, de ofender. Então, eu acho que tudo isso vai ter um reencontro de saudade e de valorização humana. Estamos vendo que nós, ricos e pobres, não somos nada e, essas valas todas que estão sendo construídas, em função da pandemia, nos mostra e nos joga na cara, dia a dia, que esse mal está muito próximo de todos. Chegou perto dos amigos, dos parentes, na periferia. Portanto, o que a gente puder fazer, em termos de generosidade a partir de agora, é aprendizado para todo mundo”.

Perfil Netinho de Paula

Nome: José de Paula Neto 
Nome artístico: Netinho 
Idade: 49 anos                                                                                                                Signo: Câncer 
Estado Civil: Solteiro
Escola de Samba do coração: Camisa Verde e Branco
Bebida preferida: Doce 
Comida preferida: Feijoada 
Perfume: Bvlgari 
Música: Flamboyant, de Emílio Santiago 
Viagem Inesquecível: Angola 
Sonho: Já realizei todos

Quer saber mais sobre o cantor Netinho de Paula? Acesse as redes sociais:

Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

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