Paula Lima é samba, é soul, é groove, é black music

A cantora libriana é puro charme. Formada em direito e dona de uma das mais importantes vozes brasileiras, é uma artista versátil com muita história pra contar 

Paula Lima
Foto: Reprodução Internet

Sua história musical começou quando ainda era muito pequena. A mãe conta que Paula Lima já acordava cantando no berço aos 3 anos de idade. E com 7, já estudava piano. Hoje, formada no instrumento, acha que o aprendizado fez com que a música tivesse um outro tipo de comunicação e sentido em sua vida. Foi observando seu pai e escutando seus discos de vinil que começou a desenhar sua carreira. “Eu comecei observando e ouvindo meu pai, com os vinis dele, na vitrola de casa, na Vila Mariana. E ele gosta muito de Ray Charles, de música cubana, de música negra de uma maneira em geral. E eu lembro, também, de ver na TV o Wilson Simonal com Sara Voughan, Alcione. Então, eu tinha esse espelho e essa paixão por imagem e som. Aquilo entrou na minha vida, tanto que são as primeiras memórias que tenho disso”, conta Paula. “A música é muito próxima, sempre foi. E eu fui me apaixonando, descobrindo uns sons através da Rádio Bandeirantes, que tinha um programa de black music incrível. Então, descobri lá o samba-rock, descobri Michael Jackson, descobri coisas incríveis”.

Na casa do tio, onde, também, tinham muitos discos e festas, Paula ouvia de tudo. Earth, Wind & Fire, Jorge Aragão, Martinho da Vila, Kool & The Gang, Quincy Jones, Djavan, Gilberto Gil. “Nesse caldeirão musical eu fui crescendo e entendendo o que era música e que isso, realmente, chegava diferente pra mim. Tinha um pouco de tudo, mas tudo dentro dessa árvore black. Então, eu sou uma cantora que eu gosto de black music, eu gosto de samba, eu cresci no samba. Acho que toda pessoa preta tem o samba como raiz, tem o samba como a base. Mas, eu também gosto muito da música americana, do ritmo. Hoje temos pessoas incríveis, como Erycak Badu, a Teyana Taylor, a própria Beyoncé”. 

Direito, música, Funk Como Le Gusta e a carreira solo

Com toda essa bagagem musical familiar, Paula foi crescendo cada vez mais apaixonada pela música. A primeira banda que integrou foi a Zomba, que tinha em sua formação Curumim. A cantora conta que a banda tinha um ritmo mais groove e a fez se sentir em seu “habitat natural”.

Quando conheceu Thaíde e DJ Hum (no mesmo dia que conheceu o criador do Funk Como Le Gusta, BiD) foi convidada a cantar a música Senhor Tempo Bom no disco deles e foi um sucesso. A partir daí eu comecei a viajar com eles, fui até Cannes, a gente fez milhares de coisas juntos, durante uns três anos”.

 “E o Funk Como Le Gusta foi começando a criar corpo nesse mesmo momento. Eu fiz parte da banda e ficou muito maior que tudo. Tinha uma energia absurda, tinha o próprio canto muito colocado de uma forma especial para o público. Pra mim, como cantora, foi um presente. Aí, eu larguei tudo e fiquei só com o Funk”.

Em paralelo a tudo isso, Paula Lima se formou em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e também, chegou a cursar, um ano de publicidade na FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado. Eu também trabalhei no Tribunal de Justiça. Então, eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu morria de medo de ter uma instabilidade porque, nós, negros, não temos uma herança. A gente tem que viver e fazer a nossa vida. Tem uma herança da ancestralidade, uma herança muito rica cultural, herança até de afeto, das nossas lembranças de festa, mas a coisa do financeiro é super importante. Eu me senti segura, que era uma cantora e que eu já conseguia sobreviver da música quando eu comecei a ter um dinheiro maior ali do que no meu próprio trabalho, era hora de me dedicar 100% a isso, para ser mais próspero”.

Funk Como Le Gusta
Foto: Reprodução Internet

O Funk Como Le Gusta explodiu em São Paulo. Diante disso, Paula foi convidada para gravar seu primeiro disco Solo, o É Isso Aí, pela gravadora Regata. “É o meu xodó. Quando a gente vai gravar o nosso primeiro disco, a gente tem muito a dizer e eu pude fazer escolhas muito assertivas”. Paula Lima contou com a produção de Max de Castro, escolhido a dedo pela cantora. “Eu pude escolher alguns músicos, outros não. Porque você, como uma cantora nova, aparentemente não sabe nada e ainda mais sendo mulher. Então, é um lugar um pouco menor, mas ainda assim eu consegui imprimir a minha cara. Eu tive algumas batalhas, positivas até, porque eu aprendi muito com isso”. 

O Samba Chic de Paula Lima

“O DVD Samba Chic foi muito importante pra mim. É um DVD marcante, diferente, ele tem uma magia. Eu sempre digo que a gente sempre tenta fazer o melhor e dar o nosso melhor, mas, às vezes, ele fica muito bom, mas não fica tão perfeito como a gente gostaria que ficasse, se é que existe perfeição. Mas no Samba Chic, acontece uma coisa que eu também sempre coloco: quando a magia acontece, mesmo não perfeito ou não super bom, fica maravilhoso.  Rola uma sensação, um sentimento, a emoção e um compartilhamento, inclusive, entre as outras pessoas. É realmente especial e o Samba Chic foi muito especial pra mim e acredito que para outras pessoas também”, conta Paula.

Em sua discografia, Paula também gravou um projeto de samba, o Samba é Do Bem, onde fez amigos na cidade do Rio de Janeiro, entre eles André Renato, filho do Sereno, do Grupo Fundo de Quintal. “Foi muito bacana pra mim. Eu fiz o projeto com o pessoal do samba, todos viraram meus amigos, ou quase todos, do Rio de Janeiro. E o André Renato é uma referência pra mim. Ele me deu um suporte muito grande. Esse disco foi muito importante e foi indicado ao Grammy Latino”.  

Em 25 anos de carreira, sendo 20 em carreira solo, além da discografia de sucesso, também participou de musicais: Cats e Brasilis – Um espetáculo do Circo Turma da Mônica, que falava sobre diversidade cultural. Foi jurada do programa Ídolos, da Rede Record e, também, comentarista do carnaval de São Paulo, na Rede Globo. Outro projeto que ela relembra com carinho, Elas cantam Chico, contou com a participação de renomadas cantoras da MPB. “Viajei um ano cantando Chico Buarque, com Margareth Menezes, Daniela Mercury e Elba Ramalho. Era uma escola pra mim. Muita experiência de grandes cantoras, grandes mulheres e eu ali junto”

Em tempos de pandemia

Com a pandemia do novo Coronavírus no Brasil e no mundo, Paula Lima, assim como todos os artistas, teve sua agenda afetada com a quarentena. Sem previsão de volta para os shows presenciais, a saída para matar um pouquinho da saudade dos palcos, são as transmissões de lives. Eu sinto muita falta do palco, do público. Saudade imensa. Não sei se a live compensa essa energia, porque é uma coisa muito distante”.

A cantora também é ativa nas redes sociais e pensando em transformação, abre espaço para debates fortes e voltados ao racismo. “Eu acho que é importante nesse momento que as pessoas estão voltadas pra isso, a gente não deixar de colocar e dar a voz, de abrir esse espaço. Não sou ativista, não sou militante, porque eu acho que quem é ativista e militante é muito maior que isso, mas eu sou uma pessoa presente, que busco usar minha voz, pra quem não tem voz. Eu sempre falo sobre meritocracia, que não existe. Sobre privilégio, que existe, mas que a gente não tem. Sobre educação que é super importante. Que a gente ensine a verdadeira história do negro para todos. Ensine a questão da diversidade, da pluralidade, inclusive nos ambientes que fogem ao nosso domínio, que são as grandes empresas. Os grandes empresários tem que ter um outro olhar sobre isso”.

Paula Lima
Foto: Reprodução Internet

Enquanto os shows não retornam, Paula aproveita o momento para se dedicar a outros projetos. Atualmente, faz parte do quadro de diretores da UBC – União Brasileira dos Compositores, instituição de arrecadação de direitos autorais.

Criamos junto com a Spotify, um fundo super importante que é o Juntos pela Música, onde a gente procura através dessa reserva auxiliar os compositores e intérpretes que ficaram na mão, nesse momento tão delicado. Então, a cada R$ 1,00 de doação, o Spotify dobra e coloca mais um. E a gente já conseguiu atender mais de 1000 músicos, que seriam mil famílias. Então, é muito bacana. É tipo um auxílio emergencial, cultural, musical, que chegou antes desse auxílio Aldir Blanc, maravilhoso, que vai fazer a diferença na cultura do Brasil”. Além disso, Paula faz as lives da UBC, todas as quintas, às 16h, onde entrevista cantores e compositores.  

Paula também pode ser ouvida no programa de rádio, Chocolate Quente, que é transmitido pela Rádio Eldorado. “Estou lá há 8 anos. O programa já ganhou até prêmio, o ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte). Só toco música negra do Brasil e do mundo. Pesquiso, monto repertório, toda terça e quinta, às 20h00. Eu tenho ainda meu projeto Show Lee, onde canto músicas da Rita Lee, na versão soul e já estou pensando em um disco novo para 2021, com músicas inéditas. Tudo está valendo a pena. Em termos de trabalho, financeiramente, não se compara ao processo sem pandemia, até porque o meu setor foi o primeiro a parar e, vai ser, provavelmente, o último a voltar, mas tem a coisa da criação, de descoberta que é bacana”.

Perfil Paula Lima

Nome: Paula Cristina Alves de Lima Santos 
Apelido: Pedrinha de Brilhante                                                                           
Estado Civil: Casada 
Escola de Samba do coração: Beija-Flor 
Bebida preferida: Suco de Laranja 
Comida preferida: Feijão com línguiça 
Perfume: Molecules 
Música: Meu Guarda-Chuva 
Viagem Inesquecível: Japão
Sonho: Que todas as pessoas tivessem mais oportunidades

Quer saber mais sobre a cantora Paula Lima? Acesse as redes sociais:

Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

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