“Preto Velho conta a saga do café num canto de fé” é o enredo da Acadêmicos do Tatuapé

Enredo 2021 - Acadêmicos do Tatuapé

A escola de samba Acadêmicos do Tatuapé divulgou seu enredo para o Carnaval 2021 e promete buscar o terceiro título para sua comunidade. 

“Preto Velho conta a saga do café num canto de fé” será desenvolvido e assinado pelo carnavalesco Wagner Santos.  

A escola anunciou seu enredo através de um vídeo publicado nas redes sociais da escola e, também, a sinopse. Leia abaixo, na íntegra. 

Sinopse do enredo

Num cantinho do terreiro, com o congá firmado, velas acesas, ervas, arruda, guiné e alecrim tomam o ambiente. Tudo preparado pois o Preto-Velho vai chegar, ogans, yaôs, pais de santo e cambones se preparam para mais uma linda história que o velho vem contar. Ele vem chegando com seu rosário e seu patuá, saravá Preto-Velho. Ê, Preto-Velho chegou! Preto-velho demora, mas chega…Deus abençoe vocês, meus fios! Zambi, meu pai criador, abençoe esse cazuá! Preto velho veio cachimbar, vamos prosear e que o tempo passe bem devagar. Meus fios, eu sou preto como a noite sem estrelas. Sou velho porque trago em mim as marcas do tempo… e põe tempo nisso, meus fios. E essas marcas são que alumia minha alma. Sou velho e hoje espalho no mundo mensagens de fé, trazendo esperança com minha humildade, deixando sementes de caridade, secando a mentira e regando a verdade. Sou velho e celebro a vida, mas também trago na lembrança todas as dores que eu passei nesse lugar, nessa Terra de meu Deus que me criou. Sou preto, mas a fumaça que sai do meu cachimbo, forma nuvens brancas quando encontra o céu, e pra ajudar vocês meus fios, com muita fé, trago comigo axé e arruda, guiné e café… EU sou Velho, eu sou preto, eu sou escuro como o ventre da Mãe África, origem de toda a minha ancestralidade. Lá é a fonte de tudo, é o início do mundo! Salve, Zambi, meu “ Pai Maior” e Deus da criação. Num sopro de Zambi, o continente se criou e dele nasceram as árvores, os animais, os mares e o Ayê. Ayê é Terra. África é Ayê. Terra de montes e vales, rios e mares, de danças e mitos, cheia de herança. Terra dos animais selvagens, onde na savana, leões, búfalos, elefantes e outros mais, ensinaram meus irmãos guerreiros a arte da luta e da sobrevivência, da amizade e lealdade. Eu sou velho como as vidas de meus irmãos antepassados lá da África, lugar que Deus escolheu pra humanidade crescer e o café nascer. Ah, sou preto igual ao café… Ah, o café… Meus fios, esse café que hoje vocês oferecem pra esse velho preto, surgiu lá no chifre da Mãe África, na Etiópia, e de grão em grão, se espalhou pelo mundo. E pra isso acontecer, Deus Pai Zambi guiou Kaldi, um pastor de cabras até as montanhas de Kaffa, lugar bonito demais e onde nascia umas frutinhas vermelhas nos arbustos selvagens. Ao perceber que as cabras ficavam mais alegres e motivadas ao comerem esse fruto avermelhado foi correndo chamar um monge para conferir a novidade e este julgou que os frutos fossem coisa do demônio. Vê se pode! Levou-os consigo e os atirou no fogo para exorcizá-los. Um aroma delicioso encheu o monastério. O monge teria interrompido a combustão e, como as frutas estavam quentes, derramado água sobre elas. Estava preparado o primeiro cafezinho, meus fios. Logo o monge se convenceu de que algo tão delicioso só podia ser divino. Tomou uma dose e rezou a noite toda, sem sentir sono. E nas tribos desse meu paraíso, do café logo nasceu um ritual. As Senhoras do Café secavam, torravam e faziam pasta com os grãos para que seus guerreiros africanos, meus irmãos, tivessem mais força física e espiritual. Tão sentindo o cheirinho de café no ar, meus fios? Pois logo esse aroma pegou fama e viajou para outras terras desse mundo. Na Arábia virou bebida sagrada e, com carinho, foi chamada de vinho. Na Turquia o sucesso foi tanto que lá nasceu o Kiva Kan, a primeira cafeteria. E no Egito, não foi diferente, o café conquistou muita gente. Na Holanda, nasceu o primeiro cafezal em terras europeias e o café virou fonte de inspirações e idéias. Na Inglaterra, terra da realeza, o café roubou o trono do chá, com toda sutileza. E assim, meus fios, o café vai seguindo o seu caminho, porque a vida melhora depois de um cafezinho, não é verdade? Mas foi na França, lugar de rara beleza, que o Café se tornou uma proeza. O Rei Luís XIV ganha de presente algumas mudas de café de um nobre holandês e, depois desse cultivo, a prosperidade se faz cada vez mais presente na realeza. E tempos depois, meus fios, Paris já tinha as cafeterias mais charmosas da Europa e elas viraram lugar das reuniões de gente que iriam mudar a política e a vida do povo no país. Viva o Café né meus fios? E como chegou o café no Brasil? O café por aqui é igual preto velho. A estrada é longa e velho caminha devagar. É devagar, é devagarinho, mas quem anda com Preto Velho nunca ficou no caminho. Pelas mãos de um fio chamado Francisco de Melo Palheta o café chegou nessa terra sagrada. Mirongueiro igual Preto Velho, ele encantou a mulher do Governador da Guiana Francesa e trouxe pra Belém do Pará, sem pudores, preciosas sementes de café escondidas num ramalhete de flores. Mas foi no Rio de Janeiro que o café vingou e a prosperidade por esse país se espalhou. Brasil ainda era colônia e os ricos fazendeiros ganhavam do Imperador, por causa do cultivo do grão, o título de Barão. E rapidinho a produção cafeeira superou a açucareira e, com a exportação, o café rompeu fronteira. Até apelido ganhou: Ouro Negro, todo mundo assim chamou. Ah, meus fios, mas aí que o caldo entornou. Os barões cada vez mais ricos e a escravidão dos pretos cada vez mais se enraizou. Valei-me, meu Pai! Nasci e morri na Fazenda, no interior de Minas Gerais. Lá, o café era ouro que meu patrão transformava em anel, as custas do trabalho do meu povo, um trabalho muito cruel. Em troca de tanto esforço, nada recebia, apenas vestia uns trapos no corpo e só pão embolorado comia. E assim, vi muito suor e sangue dos meus irmãos no cafezal. Mãos calejadas da enxada e suja de terra, que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados. Era a senzala, era o tronco, era o chicote que arrancava nosso couro, era a lida, era a colheita, que para nós era estafa, mas para o senhor, era Ouro. Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia, que o nosso destino no fim, não seria sempre assim… E eu só conseguia suplicar: “Meus orixás, livrai-nos de todo esse mal”. Com o passar do tempo, das ervas eu fazia remédio e, de mironga em mironga, curava as feridas das chibatadas que meus irmãos levavam dos “homi” sem coração. Até os fios das Sinhazinhas (Ê iá iá), eu fazia curador quando eles não tinham mais jeito nas mãos do doutor. E com as folhas do café, eu fazia defumação na nossa senzala, no nosso cativerá, com muita fé. Os brancos me chamavam de negro fedido benzedeiro e nem obrigado diziam, mas meus irmãos agradeciam : “Viva preto velho mirongueiro, viva velho preto curandeiro”. Mas era na Senzala que meu povo negro se aliviava da dor da escravidão. Da Casa Grande se ouvia o som do tambor que contagiava e, com fé e alegria, o nosso povo dançava. Banzé e jongo era o que todo mundo mais gostava. Nossas danças, nossos sons… e isso ninguém escravizava. Ao som do tambor, um canto forte ecoava! Sou preto jongueiro e meu povo eu alegrava! Auê, meu cativeiro! Auê, meu CATIVERÁ! E era a fé que nos mantinham em pé. Enquanto a senzala dormia, minha oração eu fazia. Ajoelhado pedia clemência, Oh, São Benedito, que meu povo seja bendito! Então, meus fios, sempre que vocês tomarem um golinho de café se lembrem que a semente desse grão tem o ciclo da vida que nossos sofridos irmãos escravos plantaram um dia. Chegou a modernização, o café trouxe muitas benfeitorias pra esse chão. Meus fios, nunca vou esquecer da emoção em ver o trem na ferrovia e a luz elétrica que alumiava meu caminho na estrada fria. E bota estrada nisso, meus fios. Eram tantas que a gente até se perdia e tudo pra escoar até os portos o volume de tanto café que a gente produzia. Era tanto trabalho que os barões do café tiveram que importar mão-de-obra de outros lugares desse mundo e com isso os imigrantes italianos aqui chegaram e trabalharam para que o café continuasse sendo a riqueza do Brasil. Era tanta riqueza que até um ramo de café, depois de tanta súplica, foi parar na bandeira do Brasil quando este virou República. E na política, na briga de quem podia mais entre São Paulo e Minas Gerais, ora fazendeiro do café ora fazendeiro do leite, indicava ou se tornava Presidente e isso ficou conhecido como “Política do Café com Leite”. O tempo passou e a economia do mundo levou um choque, a bolsa de Nova York quebrou e o café no Brasil virou estoque, era a chegada da crise de 29. Meus fios, vocês sabiam que o café foi fonte de inspiração pra muitos artistas? Na tela ou no papel, na partitura ou no pincel, é aí que faz parte a coisa mais profunda da vida: a ARTE. A Arte é o que nos tira da realidade e nos leva pra um caminho mais bonito, encantador e cheio de liberdade. Num cafezal nasci e muitas vezes, torrado pelo sol, pisando na terra vermelha fervente, eu descansava embaixo de um pé de café e de repente a inspiração chegava e eu criava muita cantiga e nem percebia a fadiga. O café era meu irmão! Auê, meu irmão café! E por falar em cantiga, o café foi até tema de ópera na era antiga. Bach, o gênio da música clássica, compôs uma cantata cheia de alegria e beleza e, por aqui, Roberto Carlos, o Rei da nossa música popular, cantou “Café da Manhã” e fez todo mundo suspirar. E teve um pintor que retratou o café com muito amor! Seu nome era Cândido, numa fazenda de café nasceu e seus quadros sobre o grão e a escravidão o mundo conheceu. Até prêmio na Europa Portinari recebeu. Pois é, meus fios. Café é inspiração e os poetas sabem disso. Nos livros, num poema, numa canção, não importa se com amor ou na dor, o café sempre vai ser o melhor amigo do poeta e do escritor. É o líquido da tempestade que gera emoções, não importa a idade. Um gole de café gera poesia: a bebida satisfaz e te leva a um mundo de amor e sonhos enquanto um verso se faz. Um gole de café estimula a sabedoria, pois hoje em dia, em grupo ou solitário, quem nunca aprendeu alguma coisa num café filosófico ou literário? Do grão ou do filtro, do pó ou do líquido, nas mãos do artesão, nato ou não, o café vira artesanato. E viva a Arte com café, né meus fios? E quem nunca ouviu a frase: “Aceita um café?” ou nunca falou “Um cafezinho, por favor?” pois com café, gente minha, a vida caminha. Um bom café ajuda quem acorda acreditando que tudo vai dar certo e o dia já começa te deixando esperto. Puro é bom demais, sabor inconfundível, com leite vira pingado, “eita” bebida irresistível. Melhor coisa não há do que numa tarde fria de inverno, você ver descer o café quente no bule reluzente. É bom pra saúde, já disse o doutor. Afasta o sono, põe o sangue em movimento, a digestão acelera e faz toda a diferença, então o café é, de fato, uma potência. Delícias se faz com café também: Bolos, tortas, pudim, biscoitos, pães, sorvete, balas e tudo que dele provém. Seja na roça ou na cidade, de manhã ou de tarde, a moda antiga ou da modernidade, de máquina ou de bule, seja expresso ou de pano coador, o que importa é que o café sempre nos preenche de amor. É por tudo isso, meus fios, que esse Preto Velho gosta de café. E se tiver um bolo de fubá, aí é que esse véio vai mais se alegrar. E vocês querem saber mais? Com o café até o futuro se prevê. Os desenhos da borra no fundo da xícara tem significado e aí você escolhe se vai seguir o caminho indicado. Mas meus fios, não adianta procurar um caminho novo se não mudar o jeito de caminhar. E pra isso, sempre que precisar, é só chamar os pretos velhos que a gente vem aqui ajudar. Nossa missão é ajudar vocês, porque não há mal que crie raiz onde o amor é plantado. E na energia do café, acreditem, todo mal é retirado, com as folhas de café basta um banho para vocês receberem muito axé. Sentir nas mãos uns grãos de café ajuda muito a concentração na hora da meditação. E pra defumação não existe coisa melhor. O cheiro do café clarifica sua mente e a fumaça limpa toda a energia ruim do ambiente. Que as Pretas Velhas minhas companheiras de vida e de espiritualidade, continuem preparando esse grande Jakutá sem faltar a principal oferenda o café e o Bolo de Fubá, preparando a volta para Aruanda nossa morada Divina. Tudo isso a gente aprende na Aruanda, meus fios. Aruanda é lugar de paz, é o paraíso espiritual, paraíso dos pretos. Lá na Aruanda, atravessando a calunga, o mar de Iemanjá, todo negro encontrou a sua liberdade nos braços de Obatalá. Que todos os orixás sempre estejam ao meu lado para que eu possa continuar fazendo caridade e ajudando meus fios a seguir na estrada da verdade e com muita humildade. E pra vocês meus fios, eu visto meu branco, sim senhor! Eu me visto de paz, muito amor e caridade! Mas esse meu branco é o branco de todo dia. É a roupa da minha alma que me dá essa alegria! Saravá, povo do samba! Pai Velho vai embora, a sineta do céu de Aruanda tá tocando, Obatalá já diz que é hora! Não fiquem tristes, preto velho volta, tenham fé! Tenho muito ainda pra prosear com vocês meus fios da Tatuapé! ADORÊ AS ALMAS!!!

Divulgação Acadêmicos do Tatuapé

Fernanda Oening

Jornalista e produtora. Editora do SambaNews. Paulistana, nascida e criada na Barra Funda, bairro onde conheceu um amor pra vida inteira: Camisa Verde e Branco. Foi passista e destaque da escola por anos. Não dispensa uma boa roda de samba!

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